"Não temos Wi-Fi, conversem entre vocês"
"Si quieres te cuento por qué te quiero.
Y si quieres cuento por qué no" ♬
Jéssica Godoy
Antes de tudo, sim: eu sou romântica e falta um mês para que eu me vá. Ontem a latência das sensações me inspirava a conectar palavras e construir sentidos. Pena que eu não tinha luz, lápis ou papel, ou algum dispositivo portátil. Hoje, as palavras escritas me falham, me faltam; em lugar, um vácuo, um perigoso silêncio. Hoje, e não atualmente, tenho uma relação de amor e ódio por elas. Palavras em qualquer das suas expressões comunicacionais podem ser tão profundas e tão rasas; tão marcantes e tão sem sentido.
Justo essa semana que passou, assisti a um documentário que concorreu a um festival no Canadá neste ano, Noah, tem 17 minutos e acontece todo na tela do computador. Para mim, algo inovador. Não exatamente por essas características descritas e sim por trazer uma reflexão acerca da interferência da conectividade virtual nos relacionamentos entre as pessoas. O documentário faz a gente lidar com dois extremos: de um lado, a maravilha de ligar pessoas a todo o momento em qualquer lugar que esteja; de outro, a superficialidade que não deixa de ter essa relação (a falta do contato, as especulações, a falta de exclusividade momentânea das relações - enquanto conversa com a namorada, o rapaz está em site erótico, conversando com um amigo especulando o que a namorada pensa e os rumos da relação -). Em seguida, mostra a invasão de privacidade e a falta de confiança (alicerce de uma relação) quando o namorado invade o perfil de uma rede social da sua parceira para buscar informações que possam confirmar suas suspeitas (?). No fim, depois de ser bloqueado por aquela que se tornou sua ex (como se houvesse essa possibilidade na vida, na mente), passa a buscar salas de chat onde aparecem do outro lado da webcam os tipos mais comuns desse tipo de site. Até que encontra uma desconhecida bacana, trocam uma conversa interessante, mas efêmera. Ela se vai e nem do verdadeiro nome dela ele se inteira. Evidenciando, assim, a utopia, a falta de controle, o extrapolar das vontades reprimidas na vida real (como o que passa ao jogar The Sims), a imperfeição da conectividade e, consequentemente, a intervenção direta na relação entre as pessoas, algo corriqueiro entre os internautas grupo em que também me incluo. O mais chocante é a identificação do público que assiste com o personagem do documentário. A todo o momento parece que nós estamos fazendo aquilo (porque é algo que realmente fazemos, tirando alguns detalhes, agregando outros, mas essencialmente é a mesma coisa) e bate uma vergonha, porque aquela vontade reprimida (justamente porque fazemos escondidos dos olhos do mundo) é posta de maneira nua para que esses mesmo olhos vejam.
Por que esse relato? Acredito que a intenção dos produtores do curta metragem, jovens como eu, assim com a minha agora, não foi a de demonizar a internet, ao contrário. O mundo virtual é sim hoje indispensável para as relações pessoais. Aproximar ou afastar, ajudar ou não depende do modo como esse recurso é usado. Ou seja, demonizamos a maneira como o homem, como ser humano, utiliza a internet. Não demonizamos a extensão de seu cérebro (computador) ou a de suas capacidades comunicacionais (a própria internet). A “pecinha atrás do computador”, como muitas vezes brinca meu pai, é a única responsável pelos problemas nas relações humanas. É seu uso inconsciente, mal-educado, desequilibrado, sem limites, o grande vilão. E não somente entre mundos virtuais, mas entre a transposição de mundos. Explico-me: do mundo virtual ao mundo real e vice-versa.
A internet como extensão da comunicação cara a cara deve ser vista como tal e não como substituição, muito menos como distração, sabendo que existe uma pessoa, literal e conotativamente, ao seu lado para dialogar, para dar e receber a mesma atenção. A comunicação presencial é a única em que realmente se pode sentir o que passa a partir de um olhar (como o outro se sente, e não - nunca - o que realmente se passa na cabeça do outro). Essa comunicação não é só feita de palavras, é feita de suspiros intermináveis, gestos e expressões únicas, cheiros inconfundíveis, carinho também único, do tom da voz, de toques e arrepios, de sorrisos espontâneos, de lágrimas, vibrações, sentimentos. E por ser única, é, sem dúvida, uma raridade, desfrutá-la não tem preço.
Pensamentos soltos... Wi-Fi. Distância. Dois dias. Cara-a-cara. Raridade. Relógio. Ânimo. Presença. Oportunidade. Vínculo. Conversas. Amizade. Amor. Expectativas. Memória. Hospitalidade. Encontro. Celular. Desculpas. Omissões. Ciúmes. Dois sentimentos paradoxais misturados: tristeza e alegria. Duas pessoas. Bem, na verdade três. Duas pessoas pessoalmente. Relógio. Ausência. Ausências. Superficialidade. Lonjura. Desânimo. Silêncio. Celular. Uma pessoa virtualmente. Culpa. Um livro. Dedicatória. Relógio. Desinteresse. Regresso. Celular. Mensagens virtuais. Arrependimento. Desperdício. Carência. Anos-luz. Abatimento. Angústia. Vazio. Rejeição. Fim. Inconformada, eu suspiro.
Faltaram abraços, mas mais do que isso, onde estavas? Faltou mesmo conexão, e não me refiro a do Wi-Fi, que teve de sobra. Também não encontrei a mim em muitos momentos, encontrei foi um masoquista e incontrolável monólogo, mental. Muito menos a nós, num sentido muito mais amplo do que se poderia querer julgar. Não sei o que responder, tampouco tenho vontade. Nessas horas, palavras não conseguem ser mais fortes do que atitudes. Nem mesmo seria uma carta de um quilômetro toda escrita “eu te amo”. Palavras são vãs diante de atitudes que não as justificam. Atitudes são marcantes diante de palavras que não as justificam. O equilíbrio saudável estaria nas duas, palavras e ações, condizerem reciprocamente. Não sabe o que quer, eu sei que isso não quero. Não te esquecerei. Não me esquecerás. De nada, nem disso. A não ser que tenhamos Alzheimer. Escreverei um livro: um conto sempre conta dois contos? A Semiótica de Peirce diria talvez uns tantos mais. Um signo gera outro signo e assim sucessivamente. A história de dois amantes que, no final (da existência e não da história em comum) ela sofra de Alzheimer, ela! Talvez essa inspiração nada mais seja a vontade de que o esquecimento exista, da minha parte, e também a transpiração do egoísmo meu ao desejar que, durante meu esquecimento, recordes de tudo. Hipóteses. Especulações. Malditas especulações. Enquanto isso vivo com a vontade de, parafraseando uma canção argentina, voar para o lado de quem "me queira" de verdade. Claro, "te quiero" no sentido da língua espanhola que, assim como a palavra "saudade" da língua portuguesa, há talvez uma aproximação, nunca uma tradução. Voar como símbolo de liberdade, da consciência de que, mais do que ser, sentir-se livre é como se abraçar o mundo fosse mais do que uma ingênua ilusão.
Quanto ao Wi-Fi, mais do que respeito e educação, desligá-lo e conversar entre si, é uma questão de consideração. Os dois primeiros tem a ver com ética, o segundo, pessoalmente falando, com amor. E se já não há a espontaneidade do amor, já nada mais vale à pena.
Quanto ao Wi-Fi, mais do que respeito e educação, desligá-lo e conversar entre si, é uma questão de consideração. Os dois primeiros tem a ver com ética, o segundo, pessoalmente falando, com amor. E se já não há a espontaneidade do amor, já nada mais vale à pena.
"Marina Abramović y Ulay tuvieron una apasionada relación amorosa en la década de los 70's. Cuando sintieron que se extinguía, hicieron un pacto: recorrerían la Muralla China, cada quién desde un extremo para encontrarse en el centro, darse un fuerte abrazo y no volver a verse.
Muchos años después ella expuso su arte en el Museo de arte MoMa de New York.
Como parte de la exhibición, ella se sentaría un minuto en silencio y solo mirándose a los ojos expresarían su sentir después de haber visto la exposición, frente a ella. Observa lo que pasó cuando sorpresivamente, él se sentó..."

