terça-feira, 19 de novembro de 2013

Não temos Wi-Fi, conversem entre vocês




"Não temos Wi-Fi, conversem entre vocês"


"Si quieres te cuento por qué te quiero. 

Y si quieres cuento por qué no" 






Jéssica Godoy

Antes de tudo, sim: eu sou romântica e falta um mês para que eu me vá. Ontem a latência das sensações me inspirava a conectar palavras e construir sentidos. Pena que eu não tinha luz, lápis ou papel, ou algum dispositivo portátil. Hoje, as palavras escritas me falham, me faltam; em lugar, um vácuo, um perigoso silêncio. Hoje, e não atualmente, tenho uma relação de amor e ódio por elas. Palavras em qualquer das suas expressões comunicacionais podem ser tão profundas e tão rasas; tão marcantes e tão sem sentido.

Justo essa semana que passou, assisti a um documentário que concorreu a um festival no Canadá neste ano, Noah, tem 17 minutos e acontece todo na tela do computador. Para mim, algo inovador. Não exatamente por essas características descritas e sim por trazer uma reflexão acerca da interferência da conectividade virtual nos relacionamentos entre as pessoas. O documentário faz a gente lidar com dois extremos: de um lado, a maravilha de ligar pessoas a todo o momento em qualquer lugar que esteja; de outro, a superficialidade que não deixa de ter essa relação (a falta do contato, as especulações, a falta de exclusividade momentânea das relações - enquanto conversa com a namorada, o rapaz está em site erótico, conversando com um amigo especulando o que a namorada pensa e os rumos da relação -). Em seguida, mostra a invasão de privacidade e a falta de confiança (alicerce de uma relação) quando o namorado invade o perfil de uma rede social da sua parceira para buscar informações que possam confirmar suas suspeitas (?). No fim, depois de ser bloqueado por aquela que se tornou sua ex (como se houvesse essa possibilidade na vida, na mente), passa a buscar salas de chat onde aparecem do outro lado da webcam os tipos mais comuns desse tipo de site. Até que encontra uma desconhecida bacana, trocam uma conversa interessante, mas efêmera. Ela se vai e nem do verdadeiro nome dela ele se inteira. Evidenciando, assim, a utopia, a falta de controle, o extrapolar das vontades reprimidas na vida real (como o que passa ao jogar The Sims), a imperfeição da conectividade e, consequentemente, a intervenção direta na relação entre as pessoas, algo corriqueiro entre os internautas grupo em que também me incluo. O mais chocante é a identificação do público que assiste com o personagem do documentário. A todo o momento parece que nós estamos fazendo aquilo (porque é algo que realmente fazemos, tirando alguns detalhes, agregando outros, mas essencialmente é a mesma coisa) e bate uma vergonha, porque aquela vontade reprimida (justamente porque fazemos escondidos dos olhos do mundo) é posta de maneira nua para que esses mesmo olhos vejam.

Por que esse relato? Acredito que a intenção dos produtores do curta metragem, jovens como eu, assim com a minha agora, não foi a de demonizar a internet, ao contrário. O mundo virtual é sim hoje indispensável para as relações pessoais. Aproximar ou afastar, ajudar ou não depende do modo como esse recurso é usado. Ou seja, demonizamos a maneira como o homem, como ser humano, utiliza a internet. Não demonizamos a extensão de seu cérebro (computador) ou a de suas capacidades comunicacionais (a própria internet). A “pecinha atrás do computador”, como muitas vezes brinca meu pai, é a única responsável pelos problemas nas relações humanas. É seu uso inconsciente, mal-educado, desequilibrado, sem limites, o grande vilão. E não somente entre mundos virtuais, mas entre a transposição de mundos. Explico-me: do mundo virtual ao mundo real e vice-versa. 




A internet como extensão da comunicação cara a cara deve ser vista como tal e não como substituição, muito menos como distração, sabendo que existe uma pessoa, literal e conotativamente, ao seu lado para dialogar, para dar e receber a mesma atenção. A comunicação presencial é a única em que realmente se pode sentir o que passa a partir de um olhar (como o outro se sente, e não - nunca - o que realmente se passa na cabeça do outro). Essa comunicação não é só feita de palavras, é feita de suspiros intermináveis, gestos e expressões únicas, cheiros inconfundíveis, carinho também único, do tom da voz, de toques e arrepios, de sorrisos espontâneos, de lágrimas, vibrações, sentimentos. E por ser única, é, sem dúvida, uma raridade, desfrutá-la não tem preço.

Pensamentos soltos... Wi-Fi. Distância. Dois dias. Cara-a-cara. Raridade. Relógio. Ânimo. Presença. Oportunidade. Vínculo. Conversas. Amizade. Amor. Expectativas. Memória. Hospitalidade. Encontro. Celular. Desculpas. Omissões. Ciúmes. Dois sentimentos paradoxais misturados: tristeza e alegria. Duas pessoas. Bem, na verdade três. Duas pessoas pessoalmente. Relógio. Ausência. Ausências. Superficialidade. Lonjura. Desânimo. Silêncio. Celular. Uma pessoa virtualmente. Culpa. Um livro. Dedicatória. Relógio. Desinteresse. Regresso. Celular. Mensagens virtuais. Arrependimento. Desperdício. Carência. Anos-luz. Abatimento. Angústia. Vazio. Rejeição. Fim. Inconformada, eu suspiro.

Faltaram abraços, mas mais do que isso, onde estavas? Faltou mesmo conexão, e não me refiro a do Wi-Fi, que teve de sobra. Também não encontrei a mim em muitos momentos, encontrei foi um masoquista e incontrolável monólogo, mental. Muito menos a nós, num sentido muito mais amplo do que se poderia querer julgar. Não sei o que responder, tampouco tenho vontade. Nessas horas, palavras não conseguem ser mais fortes do que atitudes. Nem mesmo seria uma carta de um quilômetro toda escrita “eu te amo”. Palavras são vãs diante de atitudes que não as justificam. Atitudes são marcantes diante de palavras que não as justificam. O equilíbrio saudável estaria nas duas, palavras e ações, condizerem reciprocamente. Não sabe o que quer, eu sei que isso não quero. Não te esquecerei. Não me esquecerás. De nada, nem disso. A não ser que tenhamos Alzheimer. Escreverei um livro: um conto sempre conta dois contos? A Semiótica de Peirce diria talvez uns tantos mais. Um signo gera outro signo e assim sucessivamente. A história de dois amantes que, no final (da existência e não da história em comum) ela sofra de Alzheimer, ela! Talvez essa inspiração nada mais seja a vontade de que o esquecimento exista, da minha parte, e também a transpiração do egoísmo meu ao desejar que, durante meu esquecimento, recordes de tudo. Hipóteses. Especulações. Malditas especulações. Enquanto isso vivo com a vontade de, parafraseando uma canção argentina, voar para o lado de quem "me queira" de verdade. Claro, "te quiero" no sentido da língua espanhola que, assim como a palavra "saudade" da língua portuguesa, há talvez uma aproximação, nunca uma tradução. Voar como símbolo de liberdade, da consciência de que, mais do que ser, sentir-se livre é como se abraçar o mundo fosse mais do que uma ingênua ilusão.

Quanto ao Wi-Fi, mais do que respeito e educação, desligá-lo e conversar entre si, é uma questão de consideração. Os dois primeiros tem a ver com ética, o segundo, pessoalmente falando, com amor. E se já não há a espontaneidade do amor, já nada mais vale à pena.




"Marina Abramović y Ulay tuvieron una apasionada relación amorosa en la década de los 70's. Cuando sintieron que se extinguía, hicieron un pacto: recorrerían la Muralla China, cada quién desde un extremo para encontrarse en el centro, darse un fuerte abrazo y no volver a verse. 

Muchos años después ella expuso su arte en el Museo de arte MoMa de New York.

Como parte de la exhibición, ella se sentaría un minuto en silencio y solo mirándose a los ojos expresarían su sentir después de haber visto la exposición, frente a ella. Observa lo que pasó cuando sorpresivamente, él se sentó..." 

A tale of a not so unknown man


 A tale of a not so unknown man


One of this stories which, more than in our mind, happens materializing itself in cold sands...


Jéssica Godoy


That was a gray afternoon. Sky with your stacked clouds announced a thunderstorm. At first, I only could see a black pair of shoes walking slowly by a stone’s street. And then, I could see the man. He’d worn a long brown coat, on his head an old beret. Just one hand had taken a glove, the other one hadn’t appeared: maybe he didn’t have it by birth, by a guilty of a specific moment, maybe because his hand had been closed and the sleeve coat hid it, maybe not those one, it just had been fool suppositions.

The first drops of rain had started to fall down touching those ancient huge dark walls and had melted a mix of snow and mud in some wells in the sidewalk and the street. A freezing wind turned his lips into violet. He had continued walking with the same speed that before. In a suddenly moment, he had stopped, had looked in front, “Wroclaw” was written in a place that looked like a train station. He had breathed deeply and, then, closed his black eyes of restless look, which was confirmed dark circles bellow them.

I’m sure, he was a foreigner in Poland like me. Absolutely not by some aspects of his personality, described in that moment by gestural communication, after all, taking off the morals and culture, people are the same everywhere, but definitely because of his physical appearance.

Had he missed someone, more than one, only one? For what kind of experience did he pass? He had seemed worried about, but I won’t know what or why. It was crazy. Not because he was originally from another country, maybe so far from here, because obviously he could have come here when he was a child… But the loneliness had called the attention, not just because he was without a partner, a group of people, a woman, a man, a child, a pet, but definitely his attitudes had shown he missed something. He had gone on to walk by the way would take him to the station. But he’d hesitated for a moment and had come back. He had stopped for a while in a tram stop on the sidewalk. He waited for two unending minutes, stopped. He’d picked “the number 9” and had disappeared in a middle of people what was dressed like him.

What happened, what had happened, what will happen with the guy? He had been an unknown man, who had distracted my attention for around a half hour. Some people in our life distract us and we don’t know why. Maybe we know. Maybe we try to hide from ourselves. Maybe this sort of person carries with himself some part of us, we share with them the same (or seems to be the same) desires, fears, motivation, affliction. It means a state of contemplation of us by another (person), a kind of mirror, to see an outside situation in order to look better inside of us. In order to reorganize our thoughts, feelings, or to try to understand them. Sometimes it is masochism masked by a fake pleasure, or is nostalgia, and if this is confirmed, sadly it can’t be fixed. I’ve just continued on my way, crossed the street, I’ve pressed my bones together trying to keep warm. “This night is really freezing”, I thought. I rang the bell, the third floor. Above me, a sign “Babel Hostel”. My thoughts just had been fixed in sensory sensations on that piece of moment. I looked for my hand, I’d been without gloves. I’d supposed the way until the Fresh Market would be fast, it was in the middle of the block. We never suppose how many opportunities or casual things can happen in a little time, in a short distance. I’ve started to think that the nature of things helps us to leave aside, even it happens for a moment, some worried thoughts. My attention, my thoughts, my body had just looked for that cold. The door is opened. And I’ve entered fast. I’ve left behind the wind, not myself. I’m not sure if I amazed it or not. Could I understand me? And you? Some months later, someone is going to tell me a statement someone told him sometime: “a tale always tells two tales”. Now it is more understandable. Could you?