segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

(Parte I) O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62



O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62 

Mas que se expirou.
Ansiedade para voltar, ansiedade por deixar. 




Senti que, ao decolar rumo às terras polonesas, inspirei profundo e abruptamente; o ar permaneceu em meus pulmões até que, tudo aquilo que era real, transforma-se na memória em uma lembrança que me fogem palavras, como se tivesse sido um sonho sem fim de uma deliciosa noite estrelada de verão que, paradoxal e simultaneamente, cabia em um sopro. 



Jéssica Godoy 

Parte I 

Era o penúltimo sábado na Polônia e tivemos um encontro de brasileiros em Wroclaw. Conhecemos um rapaz que fez trainee pela organização e tinha renovado o contrato com a empresa para a qual trabalhou. Ele conhecia outros que permaneciam na Europa pelo mesmo motivo que ele, cada um há um tempo diferente e estamos falando em anos! Uma meia dúzia de brasileiros. A Favela inteira esteve em peso! Isso inclui a colombiana, neozelandesa e a australiana. E depois de 53 dias saboreamos uma deliciosa feijoada e caipirinha (a original!). Ingredientes encomendados. Parecia que uma portinha havia sido aberta e por um instante eu vivia de novo no Brasil. A música, pra compor a atmosfera, brasileira, é claro! A bandeira do Brasil na janela. Dancei forró com o Doug e samba com o Felipe! Eu e o Johnny sempre fofocando muito hahaha. Fiquei sem voz, alergia ao frio e ao cigarro das baladas (fui descobrir depois de voltar ao Brasil ao ir ao médico). Fiz amizade com um amor de polonesa que sabia falar português, porque namorava um brasileiro que conhecera em Portugal. Rimos, dançamos, falamos e nos divertimos pra caramba! Fiquei enciumada durante a festa, mas deixa pra lá. :P 




À noite, um capítulo à parte, opto por guardar as lembranças comigo (sim, adoro começar e não terminar, é bom instigar a curiosidade de vez em quando). E depois de mil festas de supostas despedidas da Favela e do Babel, aquela foi o fim da Favela, a última noite com todos juntos no hostel em Wroclaw!

(Parte II) O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62


O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62



Parte II 

Vamos ao que interessa: Berlim! No domingo eu, João e Léo pegamos o trem por volta dia e meia para a capital alemã. O motivo do restante só ter ido no dia seguinte? Nós três compramos a passagem momentos antes da reunião de sexta, sim, revelo um segredo: tomei minha decisão antes da reunião! E, por isso, conseguimos o ticket promocional. 

No trem, conhecemos dois franceses nascidos em Paris. Um deles, filho de portugueses. Os dois moraram pelo mesmo período no Brasil, mas por motivos diferentes: um para estudar em São Paulo e o outro na casa da família no Rio de Janeiro. Falavam muito bem o Português; o filho de portugueses, talvez também por ter morado no Rio, com um sotaque que não sabíamos distinguir se era carioca ou português. É claro que trolamos um pouco eles com gírias e expressões que só um nativo saberia, mas foi bem interessante e nos rendeu boas gargalhadas, até cumprimentá-los em francês, a única coisa que eu sei nesta língua, fiz, pra compor o tom de amizade e brincadeira que cabia à ocasião. 

Quando parei de falar, algo raro, e comecei a cair no sono, dei um grito: Rena, rena! Havia renas na estrada! Uma fofura, meu sonho de Papai Noel havia se concretizado ali hahahaha Depois usina Eólica, algo que nunca havia visto pessoalmente. 

Foi ótima a estadia em Berlim. Até tenho um vídeo de quando estava morrendo de frio andando por um parque do lado da Berlim Oriental (e a cada dez minutos entrávamos em alguma loja para nos aquecer!). 



Já causamos no primeiro dia! Não conseguimos comprar o ticket do metro na estação que estávamos. Solução? Se aventurar no metro, na maior cara dura, rezando para que um fiscal não brotasse! Sim, sem ticket! Hahahahaha Ao invés de descermos na próxima estação e comprarmos, andamos umas seis estações até o destino que queríamos. Que aventura! A cada estação, por dentro, um trilhão de palpitações por segundo na expectativa de que nenhum fiscal entrasse, por fora, a maior cara lavada de quem comprou ticket para dar e vender. Entre andanças, vimos o primo rico do Arcady, carro elétrico e entramos numa loja como quem finge procurar por algo só para nos aquecer. No retorno ao hostel, conseguimos comprar, finalmente, o ticket e entramos no metrô. Batata! Mal sentamos, a fiscal toda marrenta, entrou correndo no metrô, mostrando o crachá e dizendo em tom de ordenação: “ticket, ticket”! Não haveria escapatória! Mostramos com gosto! Hahhaha A multa, se não me engano era 40 euros, não mais salgada que a de Londres, que não lembro exatamente, mas era bem mais cara, tirando o fato de ser em Pounds... Outro dia, vimos um malandrinho querendo dar um de esperto com o fiscal, só era malandro, porque o único esperto foi o fiscal que o multou. 


Olha o primo rico do Arcady aí minha gente (em referência ao shopping em Wroclaw)



Entre um free tour que experimentei quase um frio de Auschwitz, que para mim o mais interessante foi ter ido no famoso muro de Berlim que o guia fez a questão de nos levar a uma das ruínas mais sem graças (mas depois descobrimos a parte pintada). Mas vimos também aquele portão famoso, um hotel praticamente na frente dele que já hospedou várias estrelas, outros monumentos famosos, dois inclusive iguais, a casa onde Hittler se suicidou, o memorial em homenagem aos judeus... Um pub crawl alternativo (e furado!) hahaha Favela sempre nas ciladas (falling in a trap!). Essa do pub crawl merece um bom parágrafo. 


E a neve tem forminha



No memorial aos judeus





Johnny e eu




Entre o Oriente e o Ccidente




O pub crawl que iríamos pegar era o das 20h. Aquele havia sido o dia cansativo do Free Tour. Mas perdemos o horário e pegamos, segundo o recepcionista do hostel, um pub mais legal, o alternativo, às 21h. O primeiro bar lembra um estilo indiano, mas as mesas lembravam a de um cassino (nunca entrei em um, mas imagino como seja devido a filmes). O segundo, totalmente mórbido, um bar vampiro! Bonecos de morcego, esqueletos, beeem sinistro! A essa altura eu já estava quase dormindo na mesa. Legal, mas não é um lugar que eu iria sempre com meus amigos. O outro, nem lembro direito! Hahaha Nesse meio tempo, fiz amizade com outras australianas que estavam no mesmo Pub Crawl que a gente e estavam hospedadas no mesmo hostel. Aí uma balada que só tocava psy! E só tinha o pessoal do Pub Crawl. Por último, quando já era quase meia noite, fomos levados a uma balada muito longe. Tudo isso pegando metrô! Parecia que estávamos num gueto. Na balada, suuuper baixo nível, só tocava discoteca dos anos 70! Aquele cheiro de cigarro comumente, mas o que não foi o pior: uma briga começou no meio do salão! Fomos embora nem com uma hora de balada! A australiana, pra ajudar, deu trela pra uns supostos alemãs que começaram a acompanhar a gente! E ainda mais pra piorar: não havia mais meio de transporte, a não ser taxi! A torre perto do hostel, nosso ponto de referência, parecia estar perto, pura ilusão! Andamos mais de uma hora na neve até chegar lá, no caminho, a gente cantando Beez in the trap da Nicki Minaj, Favela always in a trap! Eu com uma alergia no corpo terrível sem ter remédio na mala e a australiana atacando neve no meu rosto! Foi lindo, meu humor também! Hahahahaha Sorte que a colombiana tinha um medicamento na bolsa e me deu quando chegamos. Não foi tão ruim quanto possa parecer, muita conversa boa, risadas e é o que eu sempre digo: a companhia faz o lugar! Favela sempre Favela! E lembrar de tudo isso depois é divertidíssimo. O quão boring seria toda essa viagem sem as ciladas, sem os problemas, sem os imprevistos! Perfeito é ter tudo isso junto e misturado! 













Das estações de trem em alemão, só lembro da AlexanderPlatz que era onde fazíamos todas as baldeações. Em um dos dias o Johnny levou a gente até uma rua super famosa e linda, inclusive a rua do Hard Rock de lá. E a gente? Só gastando com roupas, souvenir, Lindt e cerveja alemã! Eu, Tati e João pedimos um Eisben e uma cerveja alemã que não lembro agora, mas começava com W, eu acho! 13 euros só o prato, caríssimo, mas não podíamos deixar de experimentar o famoso prato, veio sauerkraut e um pedaço de porco com osso, mas a carne estava avermelhada por dentro, que por sinal, achei horrível. Outro dia no restaurante do hostel experimentei o famoso Currywurst, a salsicha alemã; 




Ao estender nossa estadia em Berlim, tivemos que mudar de quarto. No primeiro, fizemos amizade com duas chilenas e eu e o Léo pudemos treinar o espanhol. Na quarta, farra na Favela que montamos em Berlim! Louise queria sair à noite, mas estávamos completamente mortos! Léo disse que ela teria que fazer todo mundo levantar de uma só vez. Pra que, a bichinha é esperta! Abriu a janela e do lado de fora nevava muito! A Tati foi a primeira a correr soltando gritinhos pelo quarto. Foi um sarro só, apesar de querermos matar a australiana nesse meio tempo! 

Favela em Berlim momentos antes da Louise escancarar a janela

Na quinta pela manhã, as tão temidas despedidas: Tati e Léo seguiam para Veneza. Na sexta, eu, Johnny e a Colômbia, voltamos a Wroclaw. Johnny pegaria o voo de lá no sábado, Sarita de Varsóvia no domingo e eu de Wroclaw na segunda. Sara e Louise ficariam até o sábado, quando Sara seguiria seu mochilão e Louise voltaria pra Wroclaw, mas não para o hostel. 

No último dia que estivemos lá, visitamos um café e trocamos boas risadas e ideias, desde cinema e literatura a filosofia e Línguas. Perto do hostel tinha um lugar que eu não sei o que era, devia ser um cinema alternativo, e em cima sempre estava escrito em cartaz: Nouvelle Vague! É tão gratificante comprovar, vivendo, tudo aquilo que aprendemos no colégio e na faculdade. Impressionante como a Europa respira cultura, na verdade, berço da civilização, a França, principalmente para as ciências humanas, legou muita coisa. 

Fiquei meio melancólica em Berlim. Isso porque a volta já estava bem próxima e as imagens que eu tinha deixado guardadas dentro de mim em algum lugar começavam a voltar: meus pais, meu irmão, minha cadelinha, casa, quarto, minha cidade, amigos, calor, poucas roupas e soltas, língua portuguesa, verde, céu azul claro e nuvens, céu estrelado. Transpirava e suspirava nacionalismo com altas doses de ansiedade. 

E quase não voltamos. É, tomamos o café da manhã e corremos para a estação de metrô. Tivemos que esperar alguns minutos a mais porque o trem que estava parado lá tinha quebrado. E estávamos com o tempo estourando: meia hora para pegar o trem de volta! Depois de paradas intermináveis dentro do metrô, chegamos à estação, enorme! Eu junto, já me sentia totalmente perdida, imagine só! Pelo menos umas três sacolas nada leves em cada mão, e uma mochila pesadíssima nas costas! Aquele dia fui a mulher de aço, porque achei que iria perder meus braços! Acho que nunca carreguei tanto peso na minha vida e não estou exagerando! Eu sempre e como sempre ficava pra trás! E parava pra descansar o braço por alguns segundos e reacomodar as sacolas na mão. Juro! Tive que abrir meu casaco e, embora o local estivesse muito gelado, eu só suava! Não chorei de dor por muito pouco! Faltavam 7 minutos para o trem sair... 

- Ai meu Deus, onde é? – Por fim, disse Johnny. 

- Ohh fuck! – Era o que nós duas dizíamos e, apesar da dor e do desespero, rindo! 

E descemos e subimos pelo menos duas vezes a mesma escada rolante até supostamente achar o trem. 

- Será que é esse? – Disse eu. 

Entre a dúvida a certeza, a colombiana e o Johnny entram no trem, eu fico pra fora e a porta fecha! Começa o desespero! Até que acho um botão do lado e consigo a abrir de novo. E o tempo passando. Sai os dois pra fora, tentamos perguntar pra alguém em inglês, ninguém sabe falar ao redor. Alguém para receber no ticket do lado de fora? Ninguém! 1 minuto. Todos entram no trem. O trem vazio. Colocamos a cabeça pra fora da porta, na tentativa de ver alguém. E o trem parte. 

- Noooooo! 

(Risos e desespero eternos!) A porta que ligava o corredor às poltronas não parava de abrir e fechar. 

- This is a ghost train! – Não havia ninguém no vagão. 

De repente, um senhor aparece. 

- is this train going to Wroclaw in Poland? 

- Ahhh… No! 

- Ooooh fuuuuuck! What do we do?! [Risos e desespero eternos! (2) ] 

O único pensamento era: come back, come back! 

- Ahhh Wroclaw? Yes, Yes! 

Ufa! 

Sentamos e, aos poucos, começamos a congelar! A calefação estava quebrada. A porta automática não parava de abrir e fechar. E ficamos ali por quase uma hora naquele frio de lascar! Até que alguém apareceu e disse que não deveríamos ficar ali. Éramos os únicos passageiros, espertos, daquele vagão fantasma. Mudamos, mas a calefação ainda continuava quebrada. O trem parou no meio do caminho para que tentassem consertar. A calefação, depois de metade do trajeto, começou a funcionar. 

Senti sede e comi uma maça (resquício do café da manhã no hostel). Depois fui caçar água! Não é possível que numa viagem de cinco horas, não haja água no trem! Atravessei-o até o último vagão. Perguntou até para os mais jovens, mas não sabiam falar inglês. Senti-me um alién. Até que eu lembrei como falava água em Polonês, “woda”. 

Enquanto isso, quando voltei, uma polonesa simpaticíssima conversava em polonês com o “garçom” e, em seguida, em inglês com os meus outros dois amigos. O rapaz disse que traria a água. Nesse meio tempo, ela fez questão de oferecer a garrafa que ela tinha comprado e só tinha dado um gole. Quando a necessidade fala mais alto, a gente aceita essas generosidades. Ahhh os poloneses são muito amáveis! Que povo mais prestativo! 

Depois, conhecemos um australiano que estava no mesmo vagão que nós. Ele levava consigo uma prancha de snowboard enorme e dizia que ficaria na Europa por dois ou três meses, levando aquela prancha! Matamo-nos de rir de dó dele depois, se as sacolas já estavam difíceis, imagina aquele trambolho! Ele perguntou onde ficaríamos em Wroclaw. Todos com medo e caladas, a colombiana, então, respondeu que ainda não sabíamos. No final, depois de muita conversa, escapa que já estávamos hospedados em um lugar, o maior mico, choramos de rir no trem. Além disso, foi um momento muito gostoso, porque conversamos sobre quando decidimos ir para a Polônia e toda a expectativa e ansiedade da viagem. A Colômbia (Sara) é demais! 

Resumindo Berlim, a sensação é de uma cidade grande perfeita onde tudo parece funcionar. São Paulo talvez daqui “mil” anos. Uma estação de metrô a cada esquina. Para amantes de grandes cidades, Berlim é a metrópole dos sonhos. Muito urbana. Se me atraiu? Prefiro algo alternativo ou mais antigo. Praga, mais mística, chamou-me muito mais a atenção.

(Parte III) O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62


O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62

Parte III 

Ao chegarmos pela última vez, pelo menos daquela temporada, porque a partir de então era esperar o momento de partir, deparamo-nos com a triste realidade de uma Favela vazia, ou quase, ainda restava um guerreiro, Doug havia ficado, por motivos particulares, na última semana no projeto. 

Corremos atrás de mil coisas naquela tarde de sexta. Torrei todo o meu dinheiro, restando-me apenas 30 Euros no cartão, comprando, enfim, uma bota waterproof descente e que aguentava baixas temperaturas, depois de quase dois meses de pés gelados (congelados) que de 500 zloty caira para mais da metade do preço e uma mochila de mochileiro. Não, não me julgue louca, comprei, porque pretendo usá-la em uma viagem muito em breve. 

Doug fora embora de madrugada. A colombiana de manhã rumo a Varsóvia, Johnny no sábado à tarde. E eu? Bem, até então, sentindo-me a Bridjet Jones cantando All By Myself! Dramas à parte, o meu maior problema foi a grana! Só tinha levado cartão da casa de câmbio, para surto do meu pai no Brasil. 

- Filha a casa de câmbio não abre de final de semana. Me fala o número da sua conta do Banco do Brasil que vou depositar para você. 

- Então, pai, eu não trouxe esse cartão para cá... 

O grande problema: se ele depositasse na segunda, não cairia a tempo de eu conseguir pegar um taxi até o aeroporto no mesmo dia. Não se esqueça que estamos lidando com três horas de diferença pra mais na Polônia. Isso significa que a casa de câmbio abriria às 9h no Brasil, mas na Polônia seria meio dia e eu deveria estar no aeroporto uma hora da tarde. Eu tinha que comprar as vodkas ainda! Depois de uma tarde inteira de correria e passando fome, uma vez que os trinta euros havia virado seis, ao comprar terços pra dar de lembrancinha na manhã daquele sábado na Ilha, já era noite na eterna Favela, quando uma intercambista de uma cidade próxima da minha no Brasil apareceu, vinda de uma cidade pequena. Fazia três semanas que eu não a via. Nisso, chegaram dois poloneses, um que eu sempre achei mega estranho, o Kuba, e outro fofinho, o Symon. E compramos uma bebida nohostel, comprei uma só, aquela seria minha refeição no dia hahaha(meu pai surtaria mais um pouco se lesse essa falta de bom senso minha). Até que ele meu deu a notícia: 

- Procura uma casa que tenha Western Union que eu mandei dinheiro por transferência bancária para você. 

E, por sorte, na estação de trem de Wroclaw, pertinho de onde eu estava, tinha uma! Problema resolvido e pudemos sair para comer algo descente, ou nem tão descente assim. Tomei uma dose pura de vodka e comi, finalmente, um Tatar: carne e ovo cru amassados e misturados. Acho que já era saudade da Polônia, ou a fome mesmo, porque achei delicioso! Despedimo-nos deles. Veríamo-nos novamente numa festa no dormitório de Symon no domingo, se tivéssemos ido. 

Tatar - Créditos foto: arquivo Doug (Douglas Barbosa)

No dia seguinte, comi no Pierogarnia o pierogi mais gostoso de Wroclaw, estava com a brasileira. Como a Favela não tinha ido lá? Perdemo-nos até encontrar a Ilha de novo. Não me canso daquele lugar! A ponte dos cadeados, a Igreja que tinha uma vista linda! O rio congelado, congelante... Morrendo de frio e esperando o enrolado do meu buddy, entramos na igreja para nos esquentar e fomos surpreendidas com uma missa. Demais! Não sou católica, mas ver a missa em polonês e ouvir um órgão tocando, arrepiou-me de tal forma! Foi divino! Causamos um pouco para conseguir sair de lá. Até que, finalmente, esperando na ponte dos cadeados, meu buddy aparece com um Sudoku, acho que ele me achou uma Nerd (sem preconceitos)! Hahahaha Passeamos mais um pouco e fomos parar nada mais e nada menos que no Chevoiena (Przedwojenna, em Polonês) que quer dizer, “antes da guerra”. Segundo meu buddy, o Ambasada, outro bar do mesmo estilo, são pubs muito comuns em toda a Polônia que preservam o estilo, a música e mesmo o preço das refeições. Por exemplo, no Przedwojenna qualquer bebida era 1 Euro e qualquer comida 2 Euros. 

Favela no Chevoiena (Przedwojenna)

No bar, conhecemos dois espanhóis da região de Galícia, um deles falava espanhol e o outro galego português, o português mais antigo. Eu, que pouco gosto disso, quase surtei com a oportunidade de estar vivenciando aquilo, na Polônia ainda por cima! Pela janela, do lado de fora, fui presenteada com uma “chuva” de neve, mais ao fundo um monumento de pedra enorme e antiquíssimo, a rua toda em paralelepípedo, já era a saudade da Polônia e imaginar que em menos de dois dias eu estaria vivendo o calor, uma arquitetura, uma natureza, uma Língua, uma lista interminável de particularidades completamente distintas. 

José, o que falava galego, era escritor. Enquanto eu esperava a conexão em Frankfurt, escrevi o seguinte no meu diário de viagem: 

“Tinha duas obras publicadas de livros sangrentos (gostava de descrever cena por cena), ‘cada personagem tem um pouco de você’, dizia-me. Fez uma brincadeira para descobrir um pouco mais sobre minha personalidade. Declamou-me uma poesia de própria autoria em galego. Fanático por teoria da conspiração, amante de filosofia, política e religião (embora se considere ateu). Se eu pudesse descrever o que senti enquanto conversava com ele em uma palavra seria “deslumbramento”, eu estava estarrecida, isso não significa que foi amor à primeira vista, na verdade depende do ponto de vista, e sim amor à primeira vista às palavras que ele proferia”. 

Voltamos eu e a brasileira para o hostel sozinhas de madrugada. Demos uma passada em um fast food. Guardei o passaporte e o dinheiro dela comigo, neura de brasileiras. 

Encontrei Christine dormindo. Era tão interessante, ela voltaria no mesmo dia que eu, mas dessa vez em voo diferente. Chegamos juntas de Munique até Wroclaw e estávamos juntas mais uma vez. 

À noite, colo uma mensagem que troquei com minha mãe por Fb: 

- Jé ,sumiu? Amanha é o dia! 


- Mãezinhaaa é amanhã! Fiquei o dia inteiro fora com a brasileira e o meu buddy. Voltamos à ilha, vi uma missa em polonês e fomos num barzinho aqui! Comi pierogi, mãe não quero voltar mais hahahahaha to apaixonada por essa cidade! Mas amanhã to pegando o voo para o Brasil! Me espere lá ;D 

(Parte IV) O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62


O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62



Parte IV 

Acordei cedo. Queria fechar os olhos e aproveitar tudo o que eu pudesse daquela última vez que dormiria na Favela, como se a noite nunca pudesse acabar, mas o compromisso de voltar e a impossibilidade de congelar o tempo martelavam na minha cabeça. Que sensação ruim, até parecia que no dia anterior eu tinha terminado com alguém que eu gostava muito. Era louco imaginar que dali dois dias, eu estaria dormindo na minha cama, no meu pequeno palácio, o meu quarto, na minha casa no Brasil. Parte de mim queria loucamente nunca mais sair dali, mas parecia que a cidade estava vazia sem a Favela, não tinha mais sentido continuar, por isso, outra parte desejava muito o Brasil, minha cidade, meus pais. Quase não consegui comprar as vodkas, porque esqueci no hostel todos os meus documentos que comprovavam que eu era maior de idade. Almocei 11h da manhã em outro shopping mall. Ao chegar, tudo parecia querer criar o clima da volta em mim: Girl From Ipanema, versão do Tom Jobim com o Frank Sinatra nos alto-falantes do mall. Almocei arroz, alguns legumes e carne, já queria me aproximar do que eu degustaria no Brasil, como se fosse um prato sofisticado. Observação: arroz e feijão seria o prato da mais alta culinária para mim! Não me despedi da estação e nem mesmo do Fresh Market. Não queria intensificar a saudade da Polônia, eu estava partindo, deveria me desapegar. A essa altura, o leitor deve estar me julgando materialista. Mas o que eu poderia fazer? Troquei o dinheiro na casa de câmbio, deixando uma quantia reservada para o taxista. 

Fechar as malas foi o caos! Christine pulava em cima da mala, Louise tentava puxar o zíper de um lado e eu de outro, até que, enfim, conseguimos. Descer as malas foi outra dificuldade que a brasileira e a Christine ajudaram. Despedi-me da Louise que veio buscar um livro que havia esquecido, deixei uma mensagem nele, no final, “your piriguete”, uma brincadeira interna. 

Peguei um táxi, fui explorada financeiramente, mas consegui ganhar cinco Zloty no final, depois de uma negociação. Troquei o que restara, guardando algumas moedas de recordação. Morri para levar as duas malas sozinhas até o guichê da companhia. As malas? Não passaram o peso por 2 quilos! 

Fiquei quase nua com a burocracia de tirar tudo pra passar no detector de metais. Esperei uma boa uma hora na sala de embarque, depois de olhar alguns souvenires. 

Atrás de mim, ouço um brasileiro conversando com alguém no telefone, tudo me despertava o clima de Brasil. O sentimento ao pegar o avião? Olhei pela janela, vi neve ao lado da pista e árvores de uma floresta, sem folhas, em série, e pensei, com um sorriso amarelo, um olhar triste, mas ao mesmo tempo de satisfação, de coragem e de missão cumprida: 

- Tchau Polônia, valeu, eu volto, até um dia! 

Tchau Polônia, valeu, eu volto, até um dia!

E por trás de uma janela de bordo, eu me despedia da Polônia

Vista aérea do trajeto Wroclaw - Frankfurt/Alemanha






Frankfurt da janela do avião



Em Frankfurt, já desci no Terminal que pegaria o voo para São Paulo. No painel, não o achava para confirmar, eram voos para o mundo inteiro. Vi um voo para o Rio, quase mesmo horário, mas não o meu! Em mente, um conselho que recebi antes de eu embarcar para a Polônia: “mantenha a calma que você consegue se virar, seu anjo da guarda está com você”. Como tinha uma folga de meia hora até o outro embarque, comi um pedaço de pizza caríssimo e comprei uma água. Em seguida, procurei um banheiro. Depois, voltei ao painel e achei. Fui seguindo as placas em direção ao meu portão. Passei pela imigração e procurei o guichê da minha companhia. Perguntei em inglês, a atendente respondeu com outra pergunta, se eu era brasileira, ela também era. Muito cedo para saber se tinha tido mudanças. Esperei até o horário indicado por ela, escrevendo no meu diário de viagens coisas mais gerais. No horário, voltei a outro painel, voo confirmado. Fui ao banheiro, escovei os dentes e ouvi nos auto-falantes a chamada para o voo com destino a São Paulo-Guarulhos em Português, depois Inglês e então em Alemão. Corri até o saguão de embarque. Muitos brasileiros, na ocasião escrevi no meu diário: 

“Agora! Mais ou menos 15 pras 19h – Aeroporto de Frankfurt, portão B23 – Terminal 1. Ouço brasileiros falando Português e acho estanho – OMG, brasileiros!”. 



Fiquei refletindo sobre um avô e um casal de netos que deveriam ter uns 12 ou 13 anos no máximo. O avô perguntava se eles tinham gostado da viagem. Facilidades para uns, dificuldades para outros... 

Um mico, a classe executiva é chamada primeira. Brasileiros que iriam de classe econômica formaram uma fila enorme na frente do portão de embarque. Pelos alto-falantes, pediam para que os passageiros saíssem da fila. Pode parecer preconceito e comigo mesma, afinal, sou brasileira, mas juro que pensei: tinha que ser brasileiro, não vi esse tipo de coisa em nenhum outro lugar daqui. 

No voo, sentei na penúltima poltrona, muito barulho. Ninguém sentou do meu lado, assim pude dormir usando os dois bancos. Antes, procurei algum filme e caí em Diário de uma Paixão, pasmem, eu nunca tinha assistido! Parecia uma tonta chorando no voo! Micão! Ouvi algumas músicas, tentei assistir um documentário de um montanhista, mas dormi. Acordei feliz da vida achando que já estava chegando e recordo que não tinha atualizado a hora do meu relógio de pulso. Fiquei me chamando de burra umas mil vezes por isso, mas ri depois, perdi o sono, fiquei olhando o mapa e o sono voltou. Os comissários de bordo eram brasileiros, sinto mais cheiro de Brasil, diferente da ida que eram alemãs e só tinha uma brasileira! Fiquei preocupada com a quantidade de Milka que eu trazia na mala e perguntei para um deles se eu precisava declarar: negativo. 



Voo de Frankfurt com destino a São Paulo


Acompanho a movimentação do avião no mapa pela tela. Costa da África, Atlântico, nordeste brasileiro, Minas Gerais, primeira turbulência. Bauru aparece na tela quando o avião chega ao estado de São Paulo. Voo tranquilo, aterrissagem mais cedo do que a prevista, 20 minutos antes. O comandante anuncia estarem 18 graus em São Paulo. Temo derreter ao sair do avião. Passo pela migração para brasileiros. Fico esperando a minha mala na esteira, sem sucesso! Entro em desespero e questiono um dos funcionários que pergunta o voo que cheguei e descobri que esperava na esteira errada! Outro mico hahahahaha Encontro uma mala e depois de alguns minutos aparece a outra. Passo pela Fazenda e vendo várias plaquinhas com nomes de passageiros e organizações, sou finalmente recebida, com um susto e um abraço, pelo Ale, meu noivinho, meu super amigo, meu irmão!



Bauru, quanta saudade de você!

Mina de Passagem de Mariana com o Ale - Junho/Julho de 2012 - Ouro Preto-Mariana/MG