segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

(Parte IV) O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62


O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62



Parte IV 

Acordei cedo. Queria fechar os olhos e aproveitar tudo o que eu pudesse daquela última vez que dormiria na Favela, como se a noite nunca pudesse acabar, mas o compromisso de voltar e a impossibilidade de congelar o tempo martelavam na minha cabeça. Que sensação ruim, até parecia que no dia anterior eu tinha terminado com alguém que eu gostava muito. Era louco imaginar que dali dois dias, eu estaria dormindo na minha cama, no meu pequeno palácio, o meu quarto, na minha casa no Brasil. Parte de mim queria loucamente nunca mais sair dali, mas parecia que a cidade estava vazia sem a Favela, não tinha mais sentido continuar, por isso, outra parte desejava muito o Brasil, minha cidade, meus pais. Quase não consegui comprar as vodkas, porque esqueci no hostel todos os meus documentos que comprovavam que eu era maior de idade. Almocei 11h da manhã em outro shopping mall. Ao chegar, tudo parecia querer criar o clima da volta em mim: Girl From Ipanema, versão do Tom Jobim com o Frank Sinatra nos alto-falantes do mall. Almocei arroz, alguns legumes e carne, já queria me aproximar do que eu degustaria no Brasil, como se fosse um prato sofisticado. Observação: arroz e feijão seria o prato da mais alta culinária para mim! Não me despedi da estação e nem mesmo do Fresh Market. Não queria intensificar a saudade da Polônia, eu estava partindo, deveria me desapegar. A essa altura, o leitor deve estar me julgando materialista. Mas o que eu poderia fazer? Troquei o dinheiro na casa de câmbio, deixando uma quantia reservada para o taxista. 

Fechar as malas foi o caos! Christine pulava em cima da mala, Louise tentava puxar o zíper de um lado e eu de outro, até que, enfim, conseguimos. Descer as malas foi outra dificuldade que a brasileira e a Christine ajudaram. Despedi-me da Louise que veio buscar um livro que havia esquecido, deixei uma mensagem nele, no final, “your piriguete”, uma brincadeira interna. 

Peguei um táxi, fui explorada financeiramente, mas consegui ganhar cinco Zloty no final, depois de uma negociação. Troquei o que restara, guardando algumas moedas de recordação. Morri para levar as duas malas sozinhas até o guichê da companhia. As malas? Não passaram o peso por 2 quilos! 

Fiquei quase nua com a burocracia de tirar tudo pra passar no detector de metais. Esperei uma boa uma hora na sala de embarque, depois de olhar alguns souvenires. 

Atrás de mim, ouço um brasileiro conversando com alguém no telefone, tudo me despertava o clima de Brasil. O sentimento ao pegar o avião? Olhei pela janela, vi neve ao lado da pista e árvores de uma floresta, sem folhas, em série, e pensei, com um sorriso amarelo, um olhar triste, mas ao mesmo tempo de satisfação, de coragem e de missão cumprida: 

- Tchau Polônia, valeu, eu volto, até um dia! 

Tchau Polônia, valeu, eu volto, até um dia!

E por trás de uma janela de bordo, eu me despedia da Polônia

Vista aérea do trajeto Wroclaw - Frankfurt/Alemanha






Frankfurt da janela do avião



Em Frankfurt, já desci no Terminal que pegaria o voo para São Paulo. No painel, não o achava para confirmar, eram voos para o mundo inteiro. Vi um voo para o Rio, quase mesmo horário, mas não o meu! Em mente, um conselho que recebi antes de eu embarcar para a Polônia: “mantenha a calma que você consegue se virar, seu anjo da guarda está com você”. Como tinha uma folga de meia hora até o outro embarque, comi um pedaço de pizza caríssimo e comprei uma água. Em seguida, procurei um banheiro. Depois, voltei ao painel e achei. Fui seguindo as placas em direção ao meu portão. Passei pela imigração e procurei o guichê da minha companhia. Perguntei em inglês, a atendente respondeu com outra pergunta, se eu era brasileira, ela também era. Muito cedo para saber se tinha tido mudanças. Esperei até o horário indicado por ela, escrevendo no meu diário de viagens coisas mais gerais. No horário, voltei a outro painel, voo confirmado. Fui ao banheiro, escovei os dentes e ouvi nos auto-falantes a chamada para o voo com destino a São Paulo-Guarulhos em Português, depois Inglês e então em Alemão. Corri até o saguão de embarque. Muitos brasileiros, na ocasião escrevi no meu diário: 

“Agora! Mais ou menos 15 pras 19h – Aeroporto de Frankfurt, portão B23 – Terminal 1. Ouço brasileiros falando Português e acho estanho – OMG, brasileiros!”. 



Fiquei refletindo sobre um avô e um casal de netos que deveriam ter uns 12 ou 13 anos no máximo. O avô perguntava se eles tinham gostado da viagem. Facilidades para uns, dificuldades para outros... 

Um mico, a classe executiva é chamada primeira. Brasileiros que iriam de classe econômica formaram uma fila enorme na frente do portão de embarque. Pelos alto-falantes, pediam para que os passageiros saíssem da fila. Pode parecer preconceito e comigo mesma, afinal, sou brasileira, mas juro que pensei: tinha que ser brasileiro, não vi esse tipo de coisa em nenhum outro lugar daqui. 

No voo, sentei na penúltima poltrona, muito barulho. Ninguém sentou do meu lado, assim pude dormir usando os dois bancos. Antes, procurei algum filme e caí em Diário de uma Paixão, pasmem, eu nunca tinha assistido! Parecia uma tonta chorando no voo! Micão! Ouvi algumas músicas, tentei assistir um documentário de um montanhista, mas dormi. Acordei feliz da vida achando que já estava chegando e recordo que não tinha atualizado a hora do meu relógio de pulso. Fiquei me chamando de burra umas mil vezes por isso, mas ri depois, perdi o sono, fiquei olhando o mapa e o sono voltou. Os comissários de bordo eram brasileiros, sinto mais cheiro de Brasil, diferente da ida que eram alemãs e só tinha uma brasileira! Fiquei preocupada com a quantidade de Milka que eu trazia na mala e perguntei para um deles se eu precisava declarar: negativo. 



Voo de Frankfurt com destino a São Paulo


Acompanho a movimentação do avião no mapa pela tela. Costa da África, Atlântico, nordeste brasileiro, Minas Gerais, primeira turbulência. Bauru aparece na tela quando o avião chega ao estado de São Paulo. Voo tranquilo, aterrissagem mais cedo do que a prevista, 20 minutos antes. O comandante anuncia estarem 18 graus em São Paulo. Temo derreter ao sair do avião. Passo pela migração para brasileiros. Fico esperando a minha mala na esteira, sem sucesso! Entro em desespero e questiono um dos funcionários que pergunta o voo que cheguei e descobri que esperava na esteira errada! Outro mico hahahahaha Encontro uma mala e depois de alguns minutos aparece a outra. Passo pela Fazenda e vendo várias plaquinhas com nomes de passageiros e organizações, sou finalmente recebida, com um susto e um abraço, pelo Ale, meu noivinho, meu super amigo, meu irmão!



Bauru, quanta saudade de você!

Mina de Passagem de Mariana com o Ale - Junho/Julho de 2012 - Ouro Preto-Mariana/MG

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