O longo suspiro de 10 dias intrínseco ao curto transpiro de 62
Parte III
Ao chegarmos pela última vez, pelo menos daquela temporada, porque a partir de então era esperar o momento de partir, deparamo-nos com a triste realidade de uma Favela vazia, ou quase, ainda restava um guerreiro, Doug havia ficado, por motivos particulares, na última semana no projeto.
Corremos atrás de mil coisas naquela tarde de sexta. Torrei todo o meu dinheiro, restando-me apenas 30 Euros no cartão, comprando, enfim, uma bota waterproof descente e que aguentava baixas temperaturas, depois de quase dois meses de pés gelados (congelados) que de 500 zloty caira para mais da metade do preço e uma mochila de mochileiro. Não, não me julgue louca, comprei, porque pretendo usá-la em uma viagem muito em breve.
Doug fora embora de madrugada. A colombiana de manhã rumo a Varsóvia, Johnny no sábado à tarde. E eu? Bem, até então, sentindo-me a Bridjet Jones cantando All By Myself! Dramas à parte, o meu maior problema foi a grana! Só tinha levado cartão da casa de câmbio, para surto do meu pai no Brasil.
- Filha a casa de câmbio não abre de final de semana. Me fala o número da sua conta do Banco do Brasil que vou depositar para você.
- Então, pai, eu não trouxe esse cartão para cá...
O grande problema: se ele depositasse na segunda, não cairia a tempo de eu conseguir pegar um taxi até o aeroporto no mesmo dia. Não se esqueça que estamos lidando com três horas de diferença pra mais na Polônia. Isso significa que a casa de câmbio abriria às 9h no Brasil, mas na Polônia seria meio dia e eu deveria estar no aeroporto uma hora da tarde. Eu tinha que comprar as vodkas ainda! Depois de uma tarde inteira de correria e passando fome, uma vez que os trinta euros havia virado seis, ao comprar terços pra dar de lembrancinha na manhã daquele sábado na Ilha, já era noite na eterna Favela, quando uma intercambista de uma cidade próxima da minha no Brasil apareceu, vinda de uma cidade pequena. Fazia três semanas que eu não a via. Nisso, chegaram dois poloneses, um que eu sempre achei mega estranho, o Kuba, e outro fofinho, o Symon. E compramos uma bebida nohostel, comprei uma só, aquela seria minha refeição no dia hahaha(meu pai surtaria mais um pouco se lesse essa falta de bom senso minha). Até que ele meu deu a notícia:
- Procura uma casa que tenha Western Union que eu mandei dinheiro por transferência bancária para você.
E, por sorte, na estação de trem de Wroclaw, pertinho de onde eu estava, tinha uma! Problema resolvido e pudemos sair para comer algo descente, ou nem tão descente assim. Tomei uma dose pura de vodka e comi, finalmente, um Tatar: carne e ovo cru amassados e misturados. Acho que já era saudade da Polônia, ou a fome mesmo, porque achei delicioso! Despedimo-nos deles. Veríamo-nos novamente numa festa no dormitório de Symon no domingo, se tivéssemos ido.
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| Tatar - Créditos foto: arquivo Doug (Douglas Barbosa) |
No dia seguinte, comi no Pierogarnia o pierogi mais gostoso de Wroclaw, estava com a brasileira. Como a Favela não tinha ido lá? Perdemo-nos até encontrar a Ilha de novo. Não me canso daquele lugar! A ponte dos cadeados, a Igreja que tinha uma vista linda! O rio congelado, congelante... Morrendo de frio e esperando o enrolado do meu buddy, entramos na igreja para nos esquentar e fomos surpreendidas com uma missa. Demais! Não sou católica, mas ver a missa em polonês e ouvir um órgão tocando, arrepiou-me de tal forma! Foi divino! Causamos um pouco para conseguir sair de lá. Até que, finalmente, esperando na ponte dos cadeados, meu buddy aparece com um Sudoku, acho que ele me achou uma Nerd (sem preconceitos)! Hahahaha Passeamos mais um pouco e fomos parar nada mais e nada menos que no Chevoiena (Przedwojenna, em Polonês) que quer dizer, “antes da guerra”. Segundo meu buddy, o Ambasada, outro bar do mesmo estilo, são pubs muito comuns em toda a Polônia que preservam o estilo, a música e mesmo o preço das refeições. Por exemplo, no Przedwojenna qualquer bebida era 1 Euro e qualquer comida 2 Euros.
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| Favela no Chevoiena (Przedwojenna) |
No bar, conhecemos dois espanhóis da região de Galícia, um deles falava espanhol e o outro galego português, o português mais antigo. Eu, que pouco gosto disso, quase surtei com a oportunidade de estar vivenciando aquilo, na Polônia ainda por cima! Pela janela, do lado de fora, fui presenteada com uma “chuva” de neve, mais ao fundo um monumento de pedra enorme e antiquíssimo, a rua toda em paralelepípedo, já era a saudade da Polônia e imaginar que em menos de dois dias eu estaria vivendo o calor, uma arquitetura, uma natureza, uma Língua, uma lista interminável de particularidades completamente distintas.
José, o que falava galego, era escritor. Enquanto eu esperava a conexão em Frankfurt, escrevi o seguinte no meu diário de viagem:
“Tinha duas obras publicadas de livros sangrentos (gostava de descrever cena por cena), ‘cada personagem tem um pouco de você’, dizia-me. Fez uma brincadeira para descobrir um pouco mais sobre minha personalidade. Declamou-me uma poesia de própria autoria em galego. Fanático por teoria da conspiração, amante de filosofia, política e religião (embora se considere ateu). Se eu pudesse descrever o que senti enquanto conversava com ele em uma palavra seria “deslumbramento”, eu estava estarrecida, isso não significa que foi amor à primeira vista, na verdade depende do ponto de vista, e sim amor à primeira vista às palavras que ele proferia”.
Voltamos eu e a brasileira para o hostel sozinhas de madrugada. Demos uma passada em um fast food. Guardei o passaporte e o dinheiro dela comigo, neura de brasileiras.
Encontrei Christine dormindo. Era tão interessante, ela voltaria no mesmo dia que eu, mas dessa vez em voo diferente. Chegamos juntas de Munique até Wroclaw e estávamos juntas mais uma vez.
À noite, colo uma mensagem que troquei com minha mãe por Fb:
- Jé ,sumiu? Amanha é o dia!
- Mãezinhaaa é amanhã! Fiquei o dia inteiro fora com a brasileira e o meu buddy. Voltamos à ilha, vi uma missa em polonês e fomos num barzinho aqui! Comi pierogi, mãe não quero voltar mais hahahahaha to apaixonada por essa cidade! Mas amanhã to pegando o voo para o Brasil! Me espere lá ;D


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