Destino? Escolha?
Seria possível serem, simultaneamente, as duas coisas?
Talvez um dia eu saiba exatamente...
Não foi fácil reviver aquela quinta e última semana de projeto mais uma vez; não só porque, após três semanas, os pequenos detalhes já parecem passar despercebidos (embora os marcantes ainda venham e virão com toda a força), mas pela saudade da Polônia e daquelas pessoas maravilhosas que conheci e não sei quando poderei rever por não mais sentir, há uma semana, o vento congelante do leste europeu.
Jéssica Godoy
Olho através de uma janela de bordo. Estar prestes a viver o que aparentemente escolhi horas antes e com tamanha convicção, por isso, sentindo espanto por mim mesma, havia sido difícil, ainda mais para uma pessoa indecisa como eu: “Será que fiz a escolha certa? Eu daria aulas na melhor escola da Polônia se permanecesse em Wroclaw, segundo eles”. Toda coincidência é meramente proposital: Brzeg é o que vejo escrito, o nome da cidade de trinta mil habitantes inicia-se com a mesma letra da minha cidade de origem, Bauru. Desço na estação com mais outros dois amigos intercambistas, um brasileiro, Douglas (Doug) e a colombiana, Sara (Colômbia).
- Are you from (o nome da Organização)?
- Yes... (?)
- It’s not we are expecting, but, whatever, nice to meet you, I’m English teacher of the school.
Nós três julgamos entender o ocorrido. Mas estávamos completamente enganados e só no dia seguinte compreenderíamos o porquê. Durante o trajeto, Natalia, alguém que vou deixar mais pra frente para revelar, deu-me a primeira dica:
- A professora tinha me mostrado seu Facebook... – E com um sorriso meigo no rosto continuou: “eu te esperava desde Dezembro”. – Até então, achei estranho e fiquei sem entender nada.
No dia seguinte, descobrimos a confusão feita pela atual gestão da “desorganização”. Foi Sara quem nos esclareceu, contando-nos uma conversa que tivera no dia anterior com a professora. Resumidamente, meu grupo era pretendido estar lá; isto significa que a decisão de trocar com a australiana (integrante de um dos três grupos que iriam, cada um, para uma cidade diferente) e viajar para uma cidadezinha no lugar dela a fim de desempenhar meu projeto não interferira em nada. Tínhamos certeza de que eu é que não era a pessoa esperada, quando, na verdade, eu era o tempo todo e não os outros dois que ali estavam comigo. Além disso, cheguei à reiteração de mais uma certeza, tudo conspira a nosso favor e nada acontece por acaso! Mesmo ao chegar ao final do texto, pode ser que o leitor se aproxime, mas só eu mesma, estando na pele, consegui compreender o sentido disso tudo.
Era dia de Ação de Graças e, por causa disso, fui levada pela menina que me escolheu na estação de trem, minha aluna, Natalia e acompanhadas por Karolina – a amiga que falava melhor inglês e, por isso, foi escolhida pelas outras para ser nossa tradutora - e Hola (Aleksandra) – irmã de Natália -, a um show noturno numa pequena praça – Hip Hop e, em seguida, Reggie polonês. E um coraçãozinho com uns dizeres em polonês foi colado no meu casaco. A temperatura? Só – 12 graus!
| Natalia, minha querida host sister |
Pegamos uma estrada e fomos para um vilarejo, Lubza (pronuncia-se Lúbja) – três mil habitantes. Entretanto, segundo descrição de Natália, ali eles têm de tudo, desde hospital e farmácia a correio e cabeleireiro. Em casa, finalmente, sou recebida pela avó (“babucha” – não se escreve, mas pronuncia-se assim, é algo como vovózinha em Polonês). Uma setentona, amor nos olhos, simpatia em pessoa. Depois, fiquei sabendo que nascera na Rússia durante a Segunda Guerra Mundial e se mudara logo após o fim da guerra ao seis anos de idade para a Polônia. Recebeu-me como uma neta e foi assim que vive a minha primeira experiência em uma Host Family. Pelas fotos de casamento espalhadas pelo quarto que me hospedaram - e me senti como uma rainha, rindo à toa como uma boba num primeiro momento e, em seguida, jogando-me numa cama de casal, depois de exatos 44 dias vivendo em um quarto com mais dez pessoas e dois banheiros para um hostel inteiro – eu passara a viver no cantinho da irmã mais velha. As três netas (a mais velha, como já se supõe, casou-se e saiu de casa), viviam somente com a avó desde crianças quando os pais mudaram para a Alemanha para trabalhar. O banheiro era enorme e compartilhado com Natalia e Hola, minhas sisters.
| Entre um domingo e uma sexta-feira muito além de host, minha eterna babucha. |
Todos os dias, a refeição era um prato polonês típico e distinto: Kielbaska (salsicha), Golabki (o meu predileto, pronuncia-se algo como Gouonpiki - o famoso Charuto no Brasil), Bigos (repolho, para mim lembra um pouco o Sauerkraut, mas é mais saboroso), Pierogi Ruskie (uma massa em pedaços pequenos, banhada no óleo e recheada com queijo branco e batata), carne de frango à milanesa (acho que esse foi o prato mais próximo do que temos no Brasil). E saboreei tudo e ainda pedi para repetir o Pierogi (caseiro, nem preciso dizer que estava delicioso!), o que Natália fez com gosto literalmente (trouxe um prato com mais Pierogis do que eu conseguiria comer... Mas, por educação, a gente não deixa sobrar um sequer no prato). Minha babucha dizia que isso era outra coisa que havia gostado em mim: tudo o que me ofereciam, eu comia. Bem, é claro que isso teria consequências um tanto drásticas se eu já não fosse muito magra antes de chegar à Polônia. No final dos dois meses, de volta pra casa e encarando uma balança, a garotinha que tinha sempre um peso equilibrado, não precisando nunca se preocupar com isso, havia ganhado sete kilos. No entanto, esse tipo de coisa é melhor abafar, porque não é o que mulher mais gosta de comentar, ainda mais em público.
| Bigos |
| Golabki |
| Pierogi Ruskie |
Em contrapartida, a única comida que eu trouxe do Brasil e que quis presenteá-las foi um pacote de paçoca, que, apesar de reclamarem de ser muito doce, amaram!
Acordávamos todos os dias cedo, às seis horas da manhã, com exceção dos dias que Natália decidia ir de carro, sim, a minha irmã tinha 19 anos e era habilitada. Da janela do meu quarto, só neve, cerca e árvores. Tirando os dias que Natália foi a motorista, nos outros, pegamos um ônibus escolar até Brzeg. Natália sempre fazia dois lanches para mim e colocava dentro de um pacote com algumas frutas. Era impossível comer tudo aquilo somado aos docinhos maravilhosos que a escola nos oferecia no intervalo das aulas. Eu até consegui guardar em alguns dias para comer antes de dormir, à noite, mas infelizmente tive que jogar, muitas vezes, muita comida fora. Na escola, na primeira semana, ela comprou em uma máquina e trouxe pra mim um chocolate quente. Durante a semana, devido a minha garganta, fez questão de me comprar pastilha e deu a entender sentir-se ofendida quando demonstrei que gostaria de pagar pelo medicamento. E se sentiu, finalmente, ofendida quando em outra situação eu quis uma cerveja e eu disse que pagaria.
Na escola, a experiência foi bem especial. Apresentamos, eu e Doug, o Brasil por diversas vezes para várias salas. Assistir à apresentação e conhecer um pouco mais sobre a Colômbia também foram momentos que acrescentaram e muito para mim! Foi tão legal quando pedimos para que eles fizessem um mapa com palavras chaves sobre o que eles lembrassem do Brasil ou da Colômbia, mas infelizmente, o clichê Rio de Janeiro, Carnaval, Futebol, Ai Se Eu Te Pego continuava arraigado. Assertividade foi o único tema mais complexo, mas que com um teatrinho que pedi para eles interpretarem, ficou mais suave de entender. Depois, jogos educativos – descubra a palavra escondida; ou o jogo dos países – 5 dicas para adivinhar de que país se trata e eu peguei pesado colocando um deles – Timor Leste -, entre outros mais. No final, falamos de sonhos: colocamos um vídeo “E se não existisse dinheiro” em inglês e, depois, pedimos para que escrevessem sonhos para 2013, para dali 5 e 10 anos. E, por fim, a mensagem de que tudo vem por merecimento e somos no futuro as consequências do que fizermos no presente. Cada aluno, cada professor e até mesmo ter sido recebidos pela diretora com honras no final foi especial cada um da sua forma, cada um do seu jeito.
No restaurante, perto da escola, comíamos de graça e sempre uma refeição diferente, com sopa como entrada. No final, agradecíamos com o famoso, para nós, Dziekuje (obrigada) e Do Widzenia (tchau); uma forma de demonstrar respeito e que estávamos nos esforçando para ter uma boa convivência com todos ali, esforço reconhecido devido ao sorriso no rosto das cozinheiras.
Doug havia ficado na casa da família de Bartek, um dos nossos alunos de 16 anos, mas que tinha cabeça e atitude maduras de pelo menos uns 24! Sara, com a professora, dois filhos (uma garotinha e um mocinho de uns 11 anos) e o marido. No primeiro dia de aula fomos levados a um barzinho bem bacana depois do colégio onde nos reunimos com outros alunos da escola.
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| Da esquerda para direita: Jéssica, professora, Sara, Douglas e Bartek |
Na noite do primeiro dia, Karolina se juntou a nós. Ficamos as quatro fofocando sobre amores, sobre os olhares atentos do único machinho intruso no ambiente, o Dimy. Não poderia me esquecer do Dimy! Um machinho Yorkshire e, além de tudo, poliglota. Sim, ele entendia polonês, inglês e português (“ô meninão” – e o rabinho balançava!), muito bonzinho, carinhoso, uma fofura! Sempre chegando de mansinho e deitando a cabeça no meu colo. Que saudade da minha Cristal (a minha Poodle que não vai lembrar mais de mim quando eu voltar ao Brasil – era o que pensava até ser recebida aos pulos por ela quando voltei “:DD”). Depois disso, começamos a brincar de um jogo de tabuleiro chinês, chato, mas elas estavam tão animadas, que mesmo quando elas me perguntavam, eu não tinha coragem de admitir. Começamos, então, a cantar e descobri que era uma das paixões da Natália e algo que também adoro, apesar de eu ser somente amadora. E cantamos juntas Someone Like You da Adele e Only Hope da Mandy Moore, não teve como não se remeter à cena do teatro em que Jamie canta, de aparência totalmente transformada, para Landon em Um Amor Para Recordar, que descobri, ela também amava! Até tentei cantar inteira Diamonds da Rihanna, é uma das músicas que vai marcar pra sempre a minha vida, porque representou muitos momentos desse intercâmbio, mas só sabia o comecinho e o refrão, uma pena e um mico! Em seguida, mostrei minha flauta e... Tocamos juntas a música do filme Titanic. E depois, fiz umas demonstrações solo de algumas canções do Beatles, Hey Jude, Let It Be, Yesterday, Eleanor Rigby.
| Da esquerda para a direita: Karolina, Dimy, Hola e Natalia apreciando a paçoca brasileira |
No dia seguinte, fomos levados para um tour na cidade depois da aula. Conhecemos um castelo construído por volta dos anos de 1500 e que fora residência do Princípe da Breslávia, mas só pudemos entrar em seu pátio interior na sexta-feira, belíssimo! Ver o pátio e imaginar camponeses ali, ou alguém retirando água do poço, aqueles vestidos longos e suntuosos, guardas, cavalos, trompetes... E, naquele mergulho profundo relembrando aulas de História, filmes e livros de cavalaria, além do imaginário de uma amante de castelos Medievais e, claro, com uma dose exagerada de romance e idealização, voltamos à realidade do ano de 2013, onde só a matéria morta está erguida e tenta contar em meio ao silêncio de pedras sobrepostas as histórias que vivenciou por séculos ali. Fomos guiados por um aluno, acima de tudo, interessado, que fez questão de nos explicar a história daquele lugar. Conhecemos o portão original das cercanias do castelo, onde, infelizmente, a muralha havia sido derrubada. Entramos em uma Igreja Barroca (bem diferente das de Ouro Preto) e uma Gótica e, por fim, tiramos uma foto numa estátua do Papa João Paulo II; segundo o rapaz polonês, é relativamente comum encontrar estátuas do mencionado papa pelas cidades da Polônia, inclusive em Wroclaw encontramos também uma.
Fui a atração da família durante a semana. Em uma noite, Michal (pronuncia-se Mirral), aluno também da escola, estava conosco e pediram para que eu repetisse várias palavras em polonês, que eram grandes e difíceis. Todos, inclusive eu, caíamos em deliciosas risadas por horas, até um vinho tinto foi oferecido pela avó em homenagem à ocasião e que não foi dispensado. Mostrei a apresentação do Brasil para minha babucha, ela amou Pássaro de Fogo da Paula Fernandes, Baião (embora eles tenham um estilo parecido na Polônia com sanfona também). Natália ficou mais entusiasmada com o vídeo do Camaro Amarelo, principalmente com a dancinha do Mariano no clipe oficial, nada boba ela “;)”. A avó começou a perguntar coisas sobre o Brasil – em Polonês – Natália, apesar de um inglês vacilante que melhorou muito durante a semana, era nossa tradutora. Engraçado dizer isso, mas mesmo quando elas falavam polonês entre si, eu conseguia entender o contexto, tanto devido a linguagem corporal quanto, por incrível que pareça, existem muitas palavras de pronúncia bastante similar com o Português. Ficou em choque de saber que atravessei o oceano para chegar até lá. Que “como assim não neva no Brasil? Sua mãe chorou quando você veio para cá?” Quando contei que a última imagem do Brasil que eu recordava da minha mãe era ela em cima do sofá da sala, empurrando a cortina com uma das mãos e olhando pela janela chorando, ela começou a chorar também (Faz-me lembrar a música do Zezé que minha mãe tanto gosta que eu cante pra ela). Em outro dia, ela pediu para falar com a minha mãe pelo Skype, foi lindo e um sarro!
Nesse dia que Michal foi à casa de Natália, voltávamos juntos da escola. Foi um momento muito especial de diálogo comigo mesmo: “meu Deus, estou num carro, numa estrada em direção a um vilarejo de três mil habitantes no interior da Polônia. Pela janela, o farol do veículo ilumina neve por todos os lados, paisagem morta, frio, escuridão. No interior do veículo, posso ouvir no rádio, uma salsa (uma mesma música que ela e a irmã adoravam), aqui, estou eu e mais dois poloneses que mal sabem falar Inglês e eu também não tenho toda essa desenvoltura com a Língua. E... Estou confiante, estou feliz! De onde vem tanta coragem?” – Eu só ria, um riso de satisfação.
Em casa, era assim que eu me sentia na casa da minha Host Family, eu era sempre recebida com uma expressão de boas vindas pela avó que estava na sala assistindo a um noticiário. Dobranoc (Boa noite), eu dizia, e era sempre abraçada por um amável sorriso dela. Era bem engraçado quando Natalia não estava por perto. Babucha começava a falar mais alto, jamais irritada, ela sempre tinha uma expressão extremamente amigável, vi nela a figura de uma avó muito querida! Mas, na cabeça dela, talvez falando mais alto, eu poderia entender melhor ou alguma coisa. Claro, junto com alguns gestos e expressões e, por incrível que pareça, conseguíamos nos entender muito bem! Sem tradução alguma, um dia, ela havia me chamado até um dos quartos, era dos pais de Natalia quando eles vinham à Lubza visitá-la. Mas ela tentava dizer em Polonês, acompanhado por gestos, que o quarto não era bom para ficar, porque o aquecedor não funcionava. Sem puxar sardinha pra minha área, mas comunicação é realmente algo sensacional!
Nos dias que se seguiram, demos uma volta numa pequena galeria que havia lá, não de quadros, de compras! Mas, ficamos só na admiração, não gastamos um “grosch” (centavo polonês). Em um dos dias da semana, depois da aula, durante a tarde, jogamos Kinect, dança e esportes e foi beeem divertido, tinha sido minha primeira vez nesse vídeo game.
Ao sair da aula, em um dos dias, enquanto esperávamos pelo ônibus, Natalia me revelou um segredo: nutria um amor platônico. Quando íamos entrar no veículo, fez-me um convite espontâneo: quando eu casar, você já está convidada para meu casamento. Uma romântica, mas não critico, sempre fui, com o tempo e os tapas na cara a gente vai perdendo, infelizmente e felizmente, um pouco dessa beleza de sonhar com uma vida de conto de fadas. Perto de casa, naquele mesmo dia, resolvi, apesar de gostar da neve bem longe de mim, fazer um anjinho e deitei com tudo no chão! Foi lindo, ainda aguardo as fotos que a Natalia tirou dessa ocasião. Ela me disse que, quando pequena, tivera uma camiseta do Brasil e que eu era o primeiro brasileiro que ela conhecia. Só então eu percebi a real importância de dar o melhor de mim. Eu não seria só para ela, mas para tantas Natalias na Polônia, nas escolas e em outros lugares no país e em outras partes do mundo, os quais conhecia ora no hostel, ora em outras viagens, ora em pubs ou baladas, a referência de brasileiro e Brasil que eles teriam, até conhecer outros brasileiros ou o próprio Brasil, ou então, por toda a vida. Que eu estava ali representando uma nação, mesmo que para uma minoria, mas que apesar disso, faria toda a diferença, assim como fez conhecer as duas Natalia, avó e neta, para mim.
Na quinta, véspera da nossa despedida, eu e Doug aceitamos o convite de irmos num Karaokê com a turma de Natália; Bartek também nos acompanhou. Mas isso só aconteceu à noite. À tarde fomos num pub bem legal! Colagens de jornais compunham a decoração do ambiente como papel de parede. Mesa de sinuca, Pinbolim. Passamos eu, Natália, Bartek, Doug e Michal grandes momentos ali. À noite, a cantoria abriu a cena e foi bem especial. Uma foto, que depois na sexta ela me presenteou revelada e posta numa moldura, marcou aquele meu instante com ela. Sara estava doente, eu quase sem voz, mas soltei o gogó, o que ainda restava, mesmo que falhasse e eu corresse o risco de perder a voz no outro dia e nos dias seguintes! Entre canções polonesas, cantamos Ai Se Eu Te Pego. O mais engraçado foi ver eu, o Doug e nosso coro polonês de fundo, Back Vocal, cantando Barbie Girl! Cantei também Thank You da Dido, From This Moment On e Man, I Feel Like a Woman da Shania Twain e outras músicas que, neste momento, não me vêm à mente.
| Karaokê com nossos alunos de Brzeg |
No último dia, na sexta-feira, dia 18/01/2013, a despedida começou logo cedo. Não foi fácil dizer tchau para alguém que, apesar de ter convivido comigo durante um período tão curto, de apenas cinco dias, se tornara tão inesquecível, como se a convivência, o carinho, o amor e o respeito tivessem sido nutridos por anos! Sim, eu chorei, mas ela também chorou por mais uma vez e me deu dois fortes abraços, um era para dar nos meus pais quando eu regressasse ao Brasil e outro era para mim, ela não disse, mas eu entendi: “guarde este, como uma proteção de ‘vó’, para sempre”. Correu no quarto e pegou uma barra enorme de Milka de amendoim (amendoim não é um dos meus grãos favoritos quando misturados ao chocolate, mas era uma forma dela poder demonstrar a gratidão por ter me conhecido, dando-me um doce com o mesmo ingrediente da paçoca). Agradeci eternamente a oportunidade de terem me abrigado ali e por me darem a oportunidade de conviver com uma família polonesa e descobrir que eles é que são o povo mais hospitaleiro que eu já conheci. Jamais vou esquecer a figura da minha vózinha Natalia, minha babucha, ao lado do batente de casa, com o Dimy no colo e, antes de Natália, a neta, minha irmã, dar a partida no carro, ela se voltando para dentro, ainda chorando e desaparecendo por trás da porta. Pela idade dela e pelas minhas condições financeiras, não sei se conseguirei revê-la viva um dia e isso me doía e me dói, espero que ela esteja bem.
Para fechar completa a experiência eternamente memorável, fomos levados por Bartek até um boliche, local onde Natália pode se juntar a nós somente depois. Ali, tive a certeza de que estava boa de mira, sem me achar, é que nunca acertei muitos pinos no boliche ou o buraco com bolas de bilhar como naquela semana, devem ter sido os ares poloneses ou sei lá o quê (hahaha). Conheci o pai do Bartek, um senhor de uns 35 a 40 anos, de aparência e alma jovial. Inclusive, foi ele quem nos levou à estação. Natália chegou a tempo de pegar os minutos finais. Estava decepcionada, porque queria que eu ficasse até o final de semana para ir numa festa na sexta à noite onde ela trabalhava como garçonete, mas eu não podia, tinha que participar de uma reunião decisiva com a organização logo mais. Não disse e sem perder o foco das últimas emoções, mas Hola era cabeleireira e proprietária de um salão de beleza em Lubza e me presenteou com um calendário. No boliche, Natalia me deu uma sacola decorada com duas caixas de bombons, livros decorados, um de Brzeg e outro de Lubza. Um cartão postal, um bloquinho de anotações e, já tendo estragado uma possível surpresa, porque já mencionei em algum momento acima, uma foto minha com ela do dia do Karaokê. Foi muitíssimo especial.
A essa altura, gostaria de fazer um parêntese: é tão inaceitável e absurdo saber que tenha acontecido em menos de 60 anos o fim de uma guerra que matou mais de um milhão de pessoas só em Auschwitz, liderada pela mente insana de um homem que se achava superior a outros povos; pior, defendendo a ideia de raças provocando, assim, a segregação e o holocausto, principalmente com os poloneses que sentiram a ignorância das atrocidades de Hitler e seus comandados na pele! Quando vamos finalmente reconhecer que somos todos seres humanos e o que nos diferencia é a nossa Língua e nossa cultura, as quais nos tornam complexos e ricos, mas no fundo somos todos tão iguais? Na essência amamos, no cerne nutrimos desejos, alegrias, coragens e medos. Tendo em vista um povo tão hospitaleiro quanto o polonês e mesmo que fosse o povo mais hostil do mundo, é extremamente triste imaginar que, segundo a professora da minha primeira escola, todas as famílias tem pelo menos uma pessoa morta em Auschwitz...
Na estação, despedimo-nos da professora, de sua família e de Bartek e seu pai. Além de uma mochila que já chegara lotada no domingo em Brzeg, nas duas mãos, muitas sacolas (inclusive de Milka, que havíamos pago 2,49 zloty!). O trem antigo, com suas cabines que lembravam as do filme do Harry Poter, ligou os vapores e anunciou partida em direção a Wroclaw. Por trás de uma janela de bordo, do lado de fora, víamos as mãos abanando e o olhar de agradecimento e de certa tristeza, já esperados de um momento de despedida, em cada um deles para cada um de nós. Como isso é uma realidade, sem finais clássicos como “viveram felizes para sempre”, era, então, pra ser dramático, se não fosse a situação cômica a seguir. Na cabine, três pessoas (poloneses, acredito eu), uma senhora mais velha lendo um livro, uma garotinha de uns 13 anos dormindo e um rapaz. Minha mochila fez o favor de entalar na porta da cabine. Sara, já dentro da cabine, se matava de rir com a situação. Eu, pra ajudar, com as sacolas na mão, entre risos descontrolados, suplicava para que o Doug me ajudasse, porque mesmo tirando-a das minhas costas, devido aos risos, não tinha forças suficientes para erguê-la e alcançar o porta-malas acima dos bancos. Resultado: o rapaz ficou parado, a menina acordou e ficou parada também olhando e a mulher soltou um olhar de desdém; nós três nos matamos de rir com a “Always Bessie” (eu – explico em um dos próximos posts esse apelido) e, depois, rimos mais um pouco quando regressamos ao Hostel e contamos a situação para o pessoal. - Ahhh Colombia, a sua risada vai ser inesquecível! - Na nossa estação final, descemos, quase subimos de novo, perdidos, não sabíamos se estávamos mesmo em Wroclaw e rimos mais um bocado do nosso desespero e falta de senso de direção depois.
No Hostel, os discursos para a derradeira reunião que fez daquele dia o nosso último dia de trabalho voluntário no projeto estavam na ponta da língua, mas isso eu deixo para outra postagem muito em breve, porque este texto mesmo é a continuação, com emendas e alterações do texto original que iniciei no dia 27/01, quando ainda estava na Polônia.
A estação, como a vida, é feita de despedidas, mas também de encontros e reencontros. E foi assim que a Favela, como os pais que recebem o filho que, depois de um período, volta pra casa, esperava-nos com muita festa, de braços abertos, ansiosa para matar as saudades e saber de notícias.
No Hostel, os discursos para a derradeira reunião que fez daquele dia o nosso último dia de trabalho voluntário no projeto estavam na ponta da língua, mas isso eu deixo para outra postagem muito em breve, porque este texto mesmo é a continuação, com emendas e alterações do texto original que iniciei no dia 27/01, quando ainda estava na Polônia.
A estação, como a vida, é feita de despedidas, mas também de encontros e reencontros. E foi assim que a Favela, como os pais que recebem o filho que, depois de um período, volta pra casa, esperava-nos com muita festa, de braços abertos, ansiosa para matar as saudades e saber de notícias.
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| Foto oficial da Favela Rocks! |


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