quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

(Parte II) Resenha de uma mente inquieta – 42 dias na Europa


Resenha de uma mente inquieta
42 dias na Europa


Parte II

Ah, no break conheci, além de Londres, Praga. Resumidamente, embora seja triste resumir experiências tão boas, digo que, com certeza, a companhia faz a viagem (sim, vou deixar no ar). O que eu vou levar para o resto da minha vida de Londres não foram os lugares turísticos onde apenas o Big Ben, o St. James Garden, a Catedral de St. Paul, o Museu de História Natural, Notting Hill (Londres como eu imaginava!), Picadilly Circus, Candem Town e a foto na Abbey Road me surpreenderam (emocionalmente falando). O metrô não funcionou no dia de Natal e nem no dia posterior por uma greve, aparentemente terrível, qualquer um pode pensar, mas em meio aos problemas é o momento em que a gente tem que procurar algo criativo: alugamos uma bicicleta por um libra o dia e esse foi o grande feito! Parece óbvio, mas não foi. Andar desde Elephant and Castle, passando pelo Big Ben, fazendo uma pausa na Trafalgar Square e subindo até Oxford Street no primeiro dia de Boxing Day não teve preço! O ruim foi andar entre a multidão com a bicicleta por quase uma hora até achar uma Stop Bike. Mas até isso foi bacana parando para pensar depois. Se eu não amasse de paixão o Brasil, moraria, sem dúvidas, em Londres, ganhando em Libras, porque olha...













E no bus londrino!









   Praga já é mais romântica, mágica, conto de fadas, o Market Square, a ópera (que valeu pela experiência, mas em um momento dormimos e em outro me deu ataque de risos por ver a nossa cara de empolgação e pelo fato de termos pago 20 euros para um evento cultural, mas boring pra caramba! Copio o que postei no Facebook na ocasião:
“Tanto República Tcheca quanto Polônia tem algo de encantado; em alguns momentos a sensação é de estar dentro do The Sims Making Magic, em outros como se tivéssemos voltado no tempo e vivêssemos numa era medieval! Recomendo muuuuuito a cidade para qualquer idade. O Castelo de Praga é lindo, mas não me chamou tanto a atenção como a Charles Bridge que, sem dúvidas, dá de 1000 a zero na famosa Tower Bridge de Londres!! Que ponte incrível, a cada poucos passos depara-se com músicos de diferentes estilos musicais, retratistas e caricaturistas, sem falar na vista maravilhosa por todos os lados!”.











O Ano Novo também foi especial, talvez um dos pontos clímax do script desse filme, mas paro por aí, isso é um blog e não um diário. Mas o que mais foi legal foi a gente andar sem destino no último dia na beira do rio de Praga, ver os cisnes, tirar foto em uma ponte que passava trem a intervalos curtos e chacoalhava-a muito! E ainda, encontrar uma igreja escondida no morro e descobrir um jardim e uma vista linda de lá! Os imprevistos, os lugares que nem todo mundo vai e as coisas que nem todo mundo faz, dão à viagem uma dimensão muito maior.

As três marias são imbatííííveis!














O que quero dizer é que esses pequenos detalhes é que me chamam mais a atenção do que qualquer ponto clichê turístico. Entender como as pessoas vivem. Estranho acostumar com o fato de olhar para todos os lugares e ver pessoas de aparência tão iguais, como se fossem todos de uma mesma família, exceções existem, mas são raras. Só a Inglaterra mesmo que parece ter sido invadida por pessoas de todas as nacionalidades. Quando pensei que seria o lugar que poderia ouvir mais o inglês, pelo menos mais do que aqui na Polônia, ledo engano! O que mais ouvi: Português! Brasileiros por todos os lados, mas há muitos indianos, negros e asiáticos também.

(Parte III) Resenha de uma mente inquieta – 42 dias na Europa


Resenha de uma mente inquieta

42 dias na Europa



Parte III

     Só que uma hora a gente tem que reconhecer nossos limites e lidar com os leõs interiores. Reconhecer que nem sempre estamos dispostos a dar nosso melhor, a ficar de cabeça baixa, às vezes a gente tem que deixar de se importar com quem não se importa conosco e fazer o melhor para e por nós. Discordo disso quando os envolvidos finais, no caso os adolescentes que me propus a acrescentar algo de novo, acabam sendo prejudicados com alguma atitude extrema, como um abandono da nossa parte. Tive uma fase semelhante no projeto voluntário que desempenho em Bauru, mas o sentimento de vontade e a união do grupo é algo transcendente, completamente diferente e por isso persisti e quando puder, regressarei. Mas volto na questão do nosso limite e da nossa disposição, algo que tem mais a ver conosco mesmo do que com o resto do mundo envolvido. Cansei de brincar de ser voluntária aqui. Aqui eles são desorganizados, algumas escolas simplesmente pensam que por estarem pagando 300 Zloty pela nossa alimentação e moradia, que desde o início tem sido algo falho da parte da Organização, encaram o nosso trabalho, que, por premissa, deveria ser social, como um vínculo empregatício. Isso, felizmente não aconteceu comigo na maioria das escolas. Mas na primeira sim, de maneira indireta, devido a cobranças em relação ao nosso desempenho e a outros fatores. É claro que a responsabilidade e o comprometimento existem, mas são completamente diferentes o sentido de cada um em cada tipo de trabalho. Trabalho voluntário é uma opção, é doação, fazer por vontade (de quem dá e de quem proporciona, coisas bem diferentes). Trabalho remunerado é obrigação, é claro que pode ser prazeroso, mas o pressuposto de cumprimento é uma exigência de dever e não de opção. Totalmente deturpado aqui, vejo mais como um sentido acadêmica que social para eles. É claro que senti que consegui fazer aquilo que eu tinha me proposto, mas achei que as crianças seriam mais sensíveis à história recente do próprio país, o fato de ter sido destruído moral e fisicamente durante a Segunda Guerra e o período do Comunismo, vejo nos mais velhos essa sensibilidade, mas o preconceito, embora dos países que conheci aqui, os poloneses sejam o povo mais amistoso, existe sim: preconceito para com um povo que dizimou parentes ou algum conhecido deles devido ao preconceito para com eles; preconceito com quem se mostra diferente fisicamente. Longe de mim generalizar, mas infelizmente presenciei algumas cenas. Algo “normal” até mesmo no Brasil, até quando? Precisamos de mais um ato absurdo para entendermos que no fundo somos todos tão iguais e que temos vontades, qualidades e defeitos como qualquer um? 







     Repensando, apresentei o Brasil a partir de outra ótica, coisas que eles jamais imaginariam e não achariam na internet, desde de literatura de Cordel, a Folclore Brasileiro, até estereótipos como futebol e Carnaval e senti, em cada rosto interessado dos meus alunos entre 12 e 20 anos, que entendiam o que eu queria dizer e dou graças a Deus pela maioria ter sido assim, presunção querer que todos se interessem e gostem. “Às vezes a gente não tá com saco para aguentar uma aula e tem que ir, porque é obrigado pela chamada, se não reprova por falta, mas a gente tem o direito de não querer de vez em quando, e é horrível se deparar com esse fator limitante”, sem puxar saco, mas palavras sábias do meu professor de Antropologia Cultural. E é o que exatamente sinto esta semana aqui e penso sim em tomar uma atitude extrema; afinal, a primeira pessoa mais importante para mim, no momento, deve ser eu mesma e muita gente que ainda vai me criticar, faria o mesmo se estivesse no meu lugar.



(Parte IV) Resenha de uma mente inquieta – 42 dias na Europa


Resenha de uma mente inquieta
42 dias na Europa


Parte IV

E em meio a todo esse turbilhão de ideias, retrato da minha mente, tento retomar a questão do começo. Não queria discutir uma questão existencial, mas como não discutir, qualquer experiência que seja, se não falar da vida? Um diário de bordo, que só conta experiências por cima, não vai revelar esse segredo que a viagem tem e que cada um só pode descobrir sozinho e de maneira diferente, mas que no fundo é sempre a mesma coisa: um reencontro conosco mesmo. Só reforcei o que eu já sabia, a gente não precisa ter para ser. A gente precisa ser para ser. A felicidade está nas coisas simples. Sentar na cadeira da cozinha de casa enquanto minha mãe cozinha e contar alguma coisa do meu dia. Ir no quarto encher o saco do meu irmão. Chamar meu pai de “daddy” e ver ele sorrindo de lado, todo sem graça. Ou passar um tempo na sorveteria perto de casa com a minha amiga Mel e falar das inseguranças do futuro. Ainda ir num evento voluntário com amigos e conversar com a Isabela sobre um amor interrompido, que como um vulcão adormecido, ainda mexe comigo. As conversas durante o caminho da balada ouvindo um sertanejo animado com a Ge, a Ci e a Carol sobre a vida, a faculdade e os amores! Ficar parada dentro do carro na frente da casa da bonita da Djê Djé ou no telefone compartilhando experiências parecidas, falando e ouvindo! Karaokê sem o Gui Lopes jamais será a mesma coisa! E, obviamente, não esqueceria do meu noivo Ale (risos) e nossas intermináveis e redundantes conversas sobre minha dramática epopeia da vida nas cantinas da Unesp! As ironias engraçadas do Cafu, a mesmice do estágio, mas que era legal pra caramba com a Paula e a Maitê, as conversas com a Milena! É saudade sim e também, mas é mais pra dizer que o verdadeiro sentido da vida está em procurar a satisfação por dentro, é a valorização do que já se tem. Sinto falta do verde do Brasil. Sinto falta do sol, do rio, das águas, da praia, de uma cachoeira. De comer arroz, feijão, bife e couve! De ir no Bendito e pedir uma caipirosca com uma porção de batata frita. Mas há um paradoxo em relação à felicidade que concordo com um amigo que fiz aqui (e com certeza muito desse texto tem a ver com as longas, “redundantes” – como ele as descreve, devo discordar, porque cada conversa, apesar de ter o mesmo tema, provoca um efeito diferente nas nossas ideias - e filosóficas conversas que tivemos durante esses 40 e poucos dias convivendo no mesmo quarto): “pra quem mora no sítio, colher uma verdura da horta é ser simples. Mas para quem vive numa cidade grande é algo extremamente difícil, pois, para se fazer isso é necessário sair da cidade, ir pro campo, pagar para alugar um lugar, o simples se torna algo extremamente complexo”. Então, em resposta, digo: sinto falta do que é simples para mim. Não estou e nem quero desmerecer aqui, aqui é o cenário de um filme e o melhor, eu sou a protagonista e escrevo o roteiro com todos que cruzam o meu caminho! Mas quando ele acabar, como todo curta ou longa metragem, com certeza vou dar ainda mais valor à minha realidade fora desse mundo cinematográfico. E engraçado, pode ser que, depois de um tempo, eu olhe para trás e valorize mais do que eu estou valorizando a minha estadia aqui hoje. Mas reconheço que está sendo uma grandessíssima experiência, e devo dizer que verdades absolutas sobre relacionamentos, dos mais variados, vieram por terra. Relendo e revivendo isso, como tudo passou tão devagar e rápido ao mesmo tempo. Talvez isso seja a prova de que as coisas estão sendo vividas com intensidade e estão valendo a pena.


Nem todos estão aí, mas esta representa muito a amizade que eu tenho por vocês

A partir de agora, restam-me mais 18 dias, pouco mais de duas semanas. Agora me vou, porque na vida, diferentemente de um filme, embora a gente queira, não pode dar pause. Espero, muito provavelmente, um final pós-moderno: irei, mas nada tem um fim. Um dia volto para Wroclaw, mas na primavera e, fazendo jus a todo o romantismo que esta estação requer, coloco um cadeado na ponte com dois nomes gravados, claro que um deles deve ser meu. One day...



(Parte I) Resenha de uma mente inquieta – 42 dias na Europa


Resenha de uma mente inquieta 
42 dias na Europa


Tem fôlego? Sim, um texto enorme em quatro partes para compensar o misto de preguiça, a falta de tempo, a indiferença e mesmo a resistência de compartilhar um pouco da minha intimidade e experiências de uma maneira que é a minha cara: escrevendo muito, isto é, sem me pautar apenas no lado superficial das coisas. O dia que eu conseguir ser profunda, com poucas e simples palavras, desconfie da autoria! (Meu professor de Jornalismo Digital me mataria, WHATEVER!).


Parte I

      Quanto mais conheço as cidades, mais prefiro a vida no campo. Parece nostalgia às aulas de Arcadismo na disciplina de Literatura do ensino médio do escritor latino Horácio: “Fugere Urbem”, “Inutilia Truncat”, “Carpe Diem”; aparentemente pode até ser, mas é muito mais do que isso.


Essa vista não teve preço - Parque Natural Municipal das Andorinhas com meu querido Ale 
Ouro Preto/MG


Jéssica Godoy

 Em Wroclaw cheguei há pouco mais de 40 dias e, mesmo que eu ficasse parada, o que não foi o caso, a vida é um constante transformar-se. Conheci um pouco mais da cidade, paisagens de um lugar velho, mas de uma arquitetura colorida e linda que entra em contraste com uma natureza hibernante: céu acinzentado, vivo mais noites do que dias, chuva, neve, neve, chuva... Corvos, árvores escuras e ressequidas, chão coberto por uma lama preta e um rio parcialmente congelado pela neve, música boa para compensar, bares que parecem te levar ao  “Midnight in Paris” do Woody Allen ou ao “Piratas do Caribe III”.














Festa do Fim do Mundo na Favela Rocks! Resultado: cara pintada, porque eu dormi! Obs.: Falta a Louise!!  (21/12/12) 

 Frequentei novas escolas e o balanço geral, até o presente momento, foi de satisfação e crescimento, talvez menos nesta semana, mas por culpa de motivos externos, não relacionados à escola, mas sim à Organização em si agregados ao turbilhão interior que foi se somando com alguns desajustes meus durante o percurso e encontrou seu estopim no presente momento.

 Aprofundamento de novas amizades, baseado, principalmente, no respeito e no fascínio pelas diferenças que, ao longo do caminho, tornaram-se mais latentes. Novas faces de diferentes lugares também ajudaram a integrar toda essa proporção: uma garota da Bielorússia que sentou ao meu lado no sofá em frente à recepção do Hostel e começou a contar um pouco das próprias viagens e eu, influenciada pela recente iniciada leitura de “A Fantástica Volta ao Mundo”, do Zeca Camargo, presente da minha prima Silvia no meu último aniversário, que, na realidade, só reforçou todo um pensamento que eu já tinha em relação a viagens, encontrei em alguém, com uma história de vida e um crescimento em uma país cuja identidade é tão diferente da do meu, algo surpreendentemente muito comum: “o que as pessoas mais querem na vida é conhecer outras pessoas”, como disse o Zeca. Confirmei que esses são os momentos em que uma viagem realmente escancara o seu sentido maior: conhecer o outro e descobrir alguma identificação, a mínima que seja, entre milhares de diferenças, faz a gente perceber o óbvio: somos todos iguais e por isso devemos ser tratados com respeito e são as diferenças que nos fazem seres tão complexos e ricos. Ao mesmo tempo, obviamente, tive que lidar com comentários dos quais não gostei e superficialmente não me acrescentaram em nada, só mesmo em alguns instantes de revolta, mas relevei, analisando depois, mesmo esses foram momentos de teste e fortalecimento da tolerância, embora essa qualidade, em mim, esteja infinitamente longe de chegar à perfeição.
 Outro aspecto que não seria justo ser delegado ao esquecimento surge, mas de uma forma oposta: falei da questão da identificação no meio das diferenças, agora quero falar  da questão das diferenças no meio da identificação. A Polônia, longe do que eu imaginava, é um país muito semelhante, em termos de rotina diária com o Brasil. Os jovens gostam de festa, as pessoas trabalham e vão à faculdade, a maioria é cristã, não há nada de cultural chocante, apesar de, proporcionalmente, eles serem mais tradicionalistas com festas cristãs do que os brasileiros. Percebo que até aquele que se mostra mais simples pelo traje que usa, está com um livro, relativamente grande, lendo dentro do que eles chamam de Tram (uma espécie de bonde) durante o trajeto que fazem. Ok, um dos brasileiros me disse que isso é comum em São Paulo, estamos falando da maior cidade do Brasil e porque não dizer que isso acontece nas cidades grandes do Brasil também? Mas em Bauru e posso afirmar que nas cidades menores ao redor esse hábito, se for visto, é algo raro. Não se trata de uma crítica a esse meu amigo, ele apenas colocou um parênteses válido, mas sim de uma constatação do não incentivo à leitura no Brasil como um todo. Certo, eu, como estudante de Jornalismo, assumo que deveria ler mais do que eu realmente leio por ano, é uma falha minha e tenho imenso remorso por isso. O que quero dizer é que se trata de um conjunto de fatores, o não incentivo à leitura entre outros méritos, como falha no próprio sistema educacional está no fato de que livros no Brasil são caríssimos. Visitei por 4 dias Londres no período do Natal. Estive no bairro de Notting Hill, ambiente das cenas do filme que levou o mesmo nome com a gloriosa Julia Roberts, mas não foi por isso que citei esse exemplo. Fui à famosa livraria que é mostrada no filme, julgando ser caríssimo pelo ponto de referência (o bairro e o filme), pela cidade e pela moeda e incrivelmente, os grandes clássicos, eram os livros mais baratos: 2 libras! Outro aspecto são as escolas públicas aqui na Polônia. Nosso trabalho voluntário é desempenhado, na maioria, em escolas do governo em projeto conjunto com as aulas de inglês deles. A diferença com o Brasil é nítida e é válido salientar que a Polônia não é Estados Unidos, Canadá, Inglaterra ou mesmo Alemanha, país vizinho. E mesmo assim, a estrutura das escolas se iguala facilmente a um colégio particular no Brasil. Mas em termos de nível e foco do inglês, talvez se iguale a uma escola particular (e cara!) e bilíngue no Brasil. As aulas são dadas em inglês, é claro que a professora traduz para o polonês dependendo da idade, mas o nível deles é extremamente superior ao do Brasil que, ridiculamente, só foca em gramática para o vestibular quando, na vida, em situações do cotidiano, o inglês é, sem dúvida, uma língua indispensável e talvez só tenhamos a noção da proporção disso quando encaramos uma experiência internacional. O transporte aqui funciona, o tram está sempre no horário e nunca muito lotado, é fácil achar um lugar para sentar. Os motoristas param para você atravessar na faixa (algo que ainda não me acostumei). Um fato engraçado, os rapazes não sabem chegar até as moças (ficou meio velho dizer “rapazes” e “moças), não foi um fato isolado, foi um fato constante... Mas isso deixa pra lá (risos)!