Resenha de uma mente inquieta
42 dias na Europa
Parte IV
E em meio a todo esse turbilhão de ideias, retrato da minha mente, tento retomar a questão do começo. Não queria discutir uma questão existencial, mas como não discutir, qualquer experiência que seja, se não falar da vida? Um diário de bordo, que só conta experiências por cima, não vai revelar esse segredo que a viagem tem e que cada um só pode descobrir sozinho e de maneira diferente, mas que no fundo é sempre a mesma coisa: um reencontro conosco mesmo. Só reforcei o que eu já sabia, a gente não precisa ter para ser. A gente precisa ser para ser. A felicidade está nas coisas simples. Sentar na cadeira da cozinha de casa enquanto minha mãe cozinha e contar alguma coisa do meu dia. Ir no quarto encher o saco do meu irmão. Chamar meu pai de “daddy” e ver ele sorrindo de lado, todo sem graça. Ou passar um tempo na sorveteria perto de casa com a minha amiga Mel e falar das inseguranças do futuro. Ainda ir num evento voluntário com amigos e conversar com a Isabela sobre um amor interrompido, que como um vulcão adormecido, ainda mexe comigo. As conversas durante o caminho da balada ouvindo um sertanejo animado com a Ge, a Ci e a Carol sobre a vida, a faculdade e os amores! Ficar parada dentro do carro na frente da casa da bonita da Djê Djé ou no telefone compartilhando experiências parecidas, falando e ouvindo! Karaokê sem o Gui Lopes jamais será a mesma coisa! E, obviamente, não esqueceria do meu noivo Ale (risos) e nossas intermináveis e redundantes conversas sobre minha dramática epopeia da vida nas cantinas da Unesp! As ironias engraçadas do Cafu, a mesmice do estágio, mas que era legal pra caramba com a Paula e a Maitê, as conversas com a Milena! É saudade sim e também, mas é mais pra dizer que o verdadeiro sentido da vida está em procurar a satisfação por dentro, é a valorização do que já se tem. Sinto falta do verde do Brasil. Sinto falta do sol, do rio, das águas, da praia, de uma cachoeira. De comer arroz, feijão, bife e couve! De ir no Bendito e pedir uma caipirosca com uma porção de batata frita. Mas há um paradoxo em relação à felicidade que concordo com um amigo que fiz aqui (e com certeza muito desse texto tem a ver com as longas, “redundantes” – como ele as descreve, devo discordar, porque cada conversa, apesar de ter o mesmo tema, provoca um efeito diferente nas nossas ideias - e filosóficas conversas que tivemos durante esses 40 e poucos dias convivendo no mesmo quarto): “pra quem mora no sítio, colher uma verdura da horta é ser simples. Mas para quem vive numa cidade grande é algo extremamente difícil, pois, para se fazer isso é necessário sair da cidade, ir pro campo, pagar para alugar um lugar, o simples se torna algo extremamente complexo”. Então, em resposta, digo: sinto falta do que é simples para mim. Não estou e nem quero desmerecer aqui, aqui é o cenário de um filme e o melhor, eu sou a protagonista e escrevo o roteiro com todos que cruzam o meu caminho! Mas quando ele acabar, como todo curta ou longa metragem, com certeza vou dar ainda mais valor à minha realidade fora desse mundo cinematográfico. E engraçado, pode ser que, depois de um tempo, eu olhe para trás e valorize mais do que eu estou valorizando a minha estadia aqui hoje. Mas reconheço que está sendo uma grandessíssima experiência, e devo dizer que verdades absolutas sobre relacionamentos, dos mais variados, vieram por terra. Relendo e revivendo isso, como tudo passou tão devagar e rápido ao mesmo tempo. Talvez isso seja a prova de que as coisas estão sendo vividas com intensidade e estão valendo a pena.
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| Nem todos estão aí, mas esta representa muito a amizade que eu tenho por vocês |
A partir de agora, restam-me mais 18 dias, pouco mais de duas semanas. Agora me vou, porque na vida, diferentemente de um filme, embora a gente queira, não pode dar pause. Espero, muito provavelmente, um final pós-moderno: irei, mas nada tem um fim. Um dia volto para Wroclaw, mas na primavera e, fazendo jus a todo o romantismo que esta estação requer, coloco um cadeado na ponte com dois nomes gravados, claro que um deles deve ser meu. One day...

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