quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

(Parte I) Resenha de uma mente inquieta – 42 dias na Europa


Resenha de uma mente inquieta 
42 dias na Europa


Tem fôlego? Sim, um texto enorme em quatro partes para compensar o misto de preguiça, a falta de tempo, a indiferença e mesmo a resistência de compartilhar um pouco da minha intimidade e experiências de uma maneira que é a minha cara: escrevendo muito, isto é, sem me pautar apenas no lado superficial das coisas. O dia que eu conseguir ser profunda, com poucas e simples palavras, desconfie da autoria! (Meu professor de Jornalismo Digital me mataria, WHATEVER!).


Parte I

      Quanto mais conheço as cidades, mais prefiro a vida no campo. Parece nostalgia às aulas de Arcadismo na disciplina de Literatura do ensino médio do escritor latino Horácio: “Fugere Urbem”, “Inutilia Truncat”, “Carpe Diem”; aparentemente pode até ser, mas é muito mais do que isso.


Essa vista não teve preço - Parque Natural Municipal das Andorinhas com meu querido Ale 
Ouro Preto/MG


Jéssica Godoy

 Em Wroclaw cheguei há pouco mais de 40 dias e, mesmo que eu ficasse parada, o que não foi o caso, a vida é um constante transformar-se. Conheci um pouco mais da cidade, paisagens de um lugar velho, mas de uma arquitetura colorida e linda que entra em contraste com uma natureza hibernante: céu acinzentado, vivo mais noites do que dias, chuva, neve, neve, chuva... Corvos, árvores escuras e ressequidas, chão coberto por uma lama preta e um rio parcialmente congelado pela neve, música boa para compensar, bares que parecem te levar ao  “Midnight in Paris” do Woody Allen ou ao “Piratas do Caribe III”.














Festa do Fim do Mundo na Favela Rocks! Resultado: cara pintada, porque eu dormi! Obs.: Falta a Louise!!  (21/12/12) 

 Frequentei novas escolas e o balanço geral, até o presente momento, foi de satisfação e crescimento, talvez menos nesta semana, mas por culpa de motivos externos, não relacionados à escola, mas sim à Organização em si agregados ao turbilhão interior que foi se somando com alguns desajustes meus durante o percurso e encontrou seu estopim no presente momento.

 Aprofundamento de novas amizades, baseado, principalmente, no respeito e no fascínio pelas diferenças que, ao longo do caminho, tornaram-se mais latentes. Novas faces de diferentes lugares também ajudaram a integrar toda essa proporção: uma garota da Bielorússia que sentou ao meu lado no sofá em frente à recepção do Hostel e começou a contar um pouco das próprias viagens e eu, influenciada pela recente iniciada leitura de “A Fantástica Volta ao Mundo”, do Zeca Camargo, presente da minha prima Silvia no meu último aniversário, que, na realidade, só reforçou todo um pensamento que eu já tinha em relação a viagens, encontrei em alguém, com uma história de vida e um crescimento em uma país cuja identidade é tão diferente da do meu, algo surpreendentemente muito comum: “o que as pessoas mais querem na vida é conhecer outras pessoas”, como disse o Zeca. Confirmei que esses são os momentos em que uma viagem realmente escancara o seu sentido maior: conhecer o outro e descobrir alguma identificação, a mínima que seja, entre milhares de diferenças, faz a gente perceber o óbvio: somos todos iguais e por isso devemos ser tratados com respeito e são as diferenças que nos fazem seres tão complexos e ricos. Ao mesmo tempo, obviamente, tive que lidar com comentários dos quais não gostei e superficialmente não me acrescentaram em nada, só mesmo em alguns instantes de revolta, mas relevei, analisando depois, mesmo esses foram momentos de teste e fortalecimento da tolerância, embora essa qualidade, em mim, esteja infinitamente longe de chegar à perfeição.
 Outro aspecto que não seria justo ser delegado ao esquecimento surge, mas de uma forma oposta: falei da questão da identificação no meio das diferenças, agora quero falar  da questão das diferenças no meio da identificação. A Polônia, longe do que eu imaginava, é um país muito semelhante, em termos de rotina diária com o Brasil. Os jovens gostam de festa, as pessoas trabalham e vão à faculdade, a maioria é cristã, não há nada de cultural chocante, apesar de, proporcionalmente, eles serem mais tradicionalistas com festas cristãs do que os brasileiros. Percebo que até aquele que se mostra mais simples pelo traje que usa, está com um livro, relativamente grande, lendo dentro do que eles chamam de Tram (uma espécie de bonde) durante o trajeto que fazem. Ok, um dos brasileiros me disse que isso é comum em São Paulo, estamos falando da maior cidade do Brasil e porque não dizer que isso acontece nas cidades grandes do Brasil também? Mas em Bauru e posso afirmar que nas cidades menores ao redor esse hábito, se for visto, é algo raro. Não se trata de uma crítica a esse meu amigo, ele apenas colocou um parênteses válido, mas sim de uma constatação do não incentivo à leitura no Brasil como um todo. Certo, eu, como estudante de Jornalismo, assumo que deveria ler mais do que eu realmente leio por ano, é uma falha minha e tenho imenso remorso por isso. O que quero dizer é que se trata de um conjunto de fatores, o não incentivo à leitura entre outros méritos, como falha no próprio sistema educacional está no fato de que livros no Brasil são caríssimos. Visitei por 4 dias Londres no período do Natal. Estive no bairro de Notting Hill, ambiente das cenas do filme que levou o mesmo nome com a gloriosa Julia Roberts, mas não foi por isso que citei esse exemplo. Fui à famosa livraria que é mostrada no filme, julgando ser caríssimo pelo ponto de referência (o bairro e o filme), pela cidade e pela moeda e incrivelmente, os grandes clássicos, eram os livros mais baratos: 2 libras! Outro aspecto são as escolas públicas aqui na Polônia. Nosso trabalho voluntário é desempenhado, na maioria, em escolas do governo em projeto conjunto com as aulas de inglês deles. A diferença com o Brasil é nítida e é válido salientar que a Polônia não é Estados Unidos, Canadá, Inglaterra ou mesmo Alemanha, país vizinho. E mesmo assim, a estrutura das escolas se iguala facilmente a um colégio particular no Brasil. Mas em termos de nível e foco do inglês, talvez se iguale a uma escola particular (e cara!) e bilíngue no Brasil. As aulas são dadas em inglês, é claro que a professora traduz para o polonês dependendo da idade, mas o nível deles é extremamente superior ao do Brasil que, ridiculamente, só foca em gramática para o vestibular quando, na vida, em situações do cotidiano, o inglês é, sem dúvida, uma língua indispensável e talvez só tenhamos a noção da proporção disso quando encaramos uma experiência internacional. O transporte aqui funciona, o tram está sempre no horário e nunca muito lotado, é fácil achar um lugar para sentar. Os motoristas param para você atravessar na faixa (algo que ainda não me acostumei). Um fato engraçado, os rapazes não sabem chegar até as moças (ficou meio velho dizer “rapazes” e “moças), não foi um fato isolado, foi um fato constante... Mas isso deixa pra lá (risos)!

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