Resenha de uma mente inquieta
42 dias na Europa
Parte III
Só que uma hora a gente tem que reconhecer nossos limites e lidar com os leõs interiores. Reconhecer que nem sempre estamos dispostos a dar nosso melhor, a ficar de cabeça baixa, às vezes a gente tem que deixar de se importar com quem não se importa conosco e fazer o melhor para e por nós. Discordo disso quando os envolvidos finais, no caso os adolescentes que me propus a acrescentar algo de novo, acabam sendo prejudicados com alguma atitude extrema, como um abandono da nossa parte. Tive uma fase semelhante no projeto voluntário que desempenho em Bauru, mas o sentimento de vontade e a união do grupo é algo transcendente, completamente diferente e por isso persisti e quando puder, regressarei. Mas volto na questão do nosso limite e da nossa disposição, algo que tem mais a ver conosco mesmo do que com o resto do mundo envolvido. Cansei de brincar de ser voluntária aqui. Aqui eles são desorganizados, algumas escolas simplesmente pensam que por estarem pagando 300 Zloty pela nossa alimentação e moradia, que desde o início tem sido algo falho da parte da Organização, encaram o nosso trabalho, que, por premissa, deveria ser social, como um vínculo empregatício. Isso, felizmente não aconteceu comigo na maioria das escolas. Mas na primeira sim, de maneira indireta, devido a cobranças em relação ao nosso desempenho e a outros fatores. É claro que a responsabilidade e o comprometimento existem, mas são completamente diferentes o sentido de cada um em cada tipo de trabalho. Trabalho voluntário é uma opção, é doação, fazer por vontade (de quem dá e de quem proporciona, coisas bem diferentes). Trabalho remunerado é obrigação, é claro que pode ser prazeroso, mas o pressuposto de cumprimento é uma exigência de dever e não de opção. Totalmente deturpado aqui, vejo mais como um sentido acadêmica que social para eles. É claro que senti que consegui fazer aquilo que eu tinha me proposto, mas achei que as crianças seriam mais sensíveis à história recente do próprio país, o fato de ter sido destruído moral e fisicamente durante a Segunda Guerra e o período do Comunismo, vejo nos mais velhos essa sensibilidade, mas o preconceito, embora dos países que conheci aqui, os poloneses sejam o povo mais amistoso, existe sim: preconceito para com um povo que dizimou parentes ou algum conhecido deles devido ao preconceito para com eles; preconceito com quem se mostra diferente fisicamente. Longe de mim generalizar, mas infelizmente presenciei algumas cenas. Algo “normal” até mesmo no Brasil, até quando? Precisamos de mais um ato absurdo para entendermos que no fundo somos todos tão iguais e que temos vontades, qualidades e defeitos como qualquer um?
Repensando, apresentei o Brasil a partir de outra ótica, coisas que eles jamais imaginariam e não achariam na internet, desde de literatura de Cordel, a Folclore Brasileiro, até estereótipos como futebol e Carnaval e senti, em cada rosto interessado dos meus alunos entre 12 e 20 anos, que entendiam o que eu queria dizer e dou graças a Deus pela maioria ter sido assim, presunção querer que todos se interessem e gostem. “Às vezes a gente não tá com saco para aguentar uma aula e tem que ir, porque é obrigado pela chamada, se não reprova por falta, mas a gente tem o direito de não querer de vez em quando, e é horrível se deparar com esse fator limitante”, sem puxar saco, mas palavras sábias do meu professor de Antropologia Cultural. E é o que exatamente sinto esta semana aqui e penso sim em tomar uma atitude extrema; afinal, a primeira pessoa mais importante para mim, no momento, deve ser eu mesma e muita gente que ainda vai me criticar, faria o mesmo se estivesse no meu lugar.
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