segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

De dezembro a dezembro



De dezembro a dezembro


Ansiedade criativa é o que eu sinto. As ideas surgem como um turbilhão e se transformam em palavras na minha cabeça. Quero regurgitar todas elas, o que me dá cansaço só de pensar em começar.




Jéssica Godoy

“La nostalgia suele ser un rasgo determinante del exilio, pero no debe descartarse que la contranostalgia lo sea del desexilio. Así como la patria no es una bandera ni un himno, sino la suma aproximada de nuestras infancias, nuestros cielos, nuestros amigos, nuestros maestros, nuestros amores, nuestras calles, nuestras cocinas, nuestras canciones, nuestros libros, nuestro lenguaje y nuestro sol, así también el país (y sobre todo el pueblo) que nos acoge nos va contagiando fervores, odios, hábitos, palabras, gestos, paisajes, tradiciones, rebeldías, y llega un momento (más aún si el exilio se prolonga) en que nos convertimos en un curioso empalme de culturas, de presencias, de sueños. Junto con una concreta esperanza de regreso, junto con la sensación inequívoca de que la vieja nostalgia se hace noción de patria, puede que vislumbremos que el sitio será ocupado por la contranostalgia, o sea, la nostalgia de lo que hoy tenemos y vamos a dejar: la curiosa nostalgia del exilio en plena patria”.
(Trecho “El Desexilio”, Mario Benedetti)


Significar, resignificar. Destruir, reconstruir.
Malba - Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires - Exposición Liliana Porter /
Crédito: Jéssica Godoy 


Já fez um ano que eu saí de casa. Exílio voluntário. Sempre pensei como seria quando chegasse esse dia, embora não seja definitivo e eu regresse, eu nunca mais vou voltar. Digo, a rotina, o meu círculo social, meus refúgios de lazer podem ser que continuem os mesmos, aparentemente, é claro, mas já não sou a mesma aqui dentro, também não seria se eu nunca tivesse saído, mas é diferente. Tampouco posso dizer que vivi cinco anos em um. Vivi um único ano, um ano único e isso bastou. Percorri uma odisseia, desbravei sendeiros desconhecidos. No começo, o intercâmbio se apresentava como pura magia, no último já era uma coisa habitual, não que eu estivesse sendo orgulhosa, mas sim que já não era uma total novidade. O primeiro foi incrível, o segundo o melhor, o terceiro intercâmbio o mais difícil. E não só pelas situações, mas sim pelo meu próprio estado emocional e a carga de experiências adquiridas em um período recorde para mim mesma e que necessitavam ser digeridas num tempo que não era o meu pra que eu pudesse viver situações novas. 

Descobri lugares, fiz amigos, fiz amores, os desfiz. Nunca imaginei que o intercâmbio fosse ser o responsável por esse primeiro passo de independência da maneira como foi. Na verdade, só tinha uma ideia vaga do que seria essa tal independencia: lavar roupa? Fazer a própria comida? Lembro exatamente daquela madrugada do dia 29... Minha mãe ajoelhada no sofá olhando timidamente por uma fresta da cortina. Eu a vi chorando, e muito. E só eu mesma sei o luto que eu senti naquele momento. Nesse dia eu nasci para o mundo e cortar o cordão umbilical foi uma morte de uma gestação, a partir daquele momento, eu teria que respirar pelos meus próprios pulmões e digerir pelo meu próprio estômago. Isso não quer dizer que eu já não tinha uma certa independência, mas teria que aprender a viver fora do útero.

Quebrei, requebrei, construí, reconstruí visões - não princípios - das coisas. Não conheço nada diante do que é o mundo, mas o pouco que eu toquei, senti que as coisas vão além da imaginação dos livros fantásticos, dos livros didáticos, dos filmes de cavalaria e das comédias românticas... Mais do que lugares, conheci ainda mais as pessoas. Um mergulho numa experiência incrível no ser humano: no outro e dentro de mim mesma.

Fellini, Liniers

Avancei, avancei até onde não conseguiria mais e descobri que eu podia ir ainda mais além quando achava que não mais. Assustei-me, recuei, estagnei. Quebrei a cabeça, refleti muito. Cheguei a conclusões, neguei todas elas logo depois. Reinventei-as. Ri muito, ri até doer a barriga, chorei muito, chorei a tal ponto de achar que dormindo meu mundo seria melhor. Mais uma vez entendi algo que eu já conhecia, contudo ainda não tinha aprendido: nosso mundo é um reflexo do nosso interior. 

Senti nos pés e na alma, a dor que causa o frio gelado do Leste Europeu - em pleno Dezembro - quando não usamos as botas adequadas. Senti o calor nos pés e na alma, a dor que causa o sol ardente de uma praia na América do Sul - em pleno Dezembro - quando não nos protegemos com filtro solar. Aprendi que a bota adequada e o filtro solar fazem toda a diferença quando lidamos com limites. Os extremos não só incomodam, eles doem, machucam. 

Assim como o intercâmbio pressupõe, conheci pessoas do mundo inteiro. No entanto, o maior aprendizado disso foi a amizade que me propiciou entrar um pouco no universo de cada um deles e perceber que o ser humano tem desejos e medos independentemente da cultura, etnia, nacionalidade ou idade... Talvez demonstrem de maneira mais aflorada, talvez de outra mais tranquila.


Fellini y Madariaga, Liniers














Senti saudade, uma saudade calma e que acaricia, e uma saudade que corta e dilacera. Senti saudade de casa, saudade dos meus pais, dos meus amigos, saudade de Bauru, saudade do Brasil, saudade do meu povo, da minha cultura, da minha Língua materna; senti saudade de outros intercâmbios, saudade de amigos estrangeiros que para mim eram mais compatriotas, apesar de todas as diferenças, comparados a muitos brasileiros; saudade de cada pedacinho de mundo que ficou com uma parte de mim, porque levei uma parte deles.

Sou uma metamorfose. Sou definições, sou indefinições, algumas permanentes, algumas temporárias. Uma “bralonesachilentina”. Sou um pouquinho de cada lugar que viajei e morei. Sou também um pedacinho do lugar de origem de cada amigo desse mundo que fiz. 

Tenho nas veias o sangue dos indígenas que sofreram e sofrem etnocídio e genocídio desde 1500. Tenho os pés na senzala, tenho nos traços e nos cabelos os genes dos negros africanos que vieram obrigados, trabalharam como escravos, viraram mercadoria e hoje lutam para sair do patamar de marginalização que o próprio fim da escravidão os deixou. Tenho na cor da pele, nos costumes e na língua a miscigenação com o sangue colonizador. Sou a luta contra a dependência que ainda sofremos. Sou a classe baixa que ascendeu socialmente com o neopopulismo do atual governo de índole tão alienadamente reproduzida e criticada. Mas também os poloneses que morreram no holocausto. A ditadura comunista do Leste Europeu. Sou os brasileiros, chilenos e argentinos, sou a América Latina que morreu na ditadura militar no século XX lutando por democracia e uma sociedade mais justa e igual. Sou os chilenos que lutam por uma nova constituição, por uma educação gratuita e de qualidade. Sou os argentinos que morreram numa guerra tão estúpida como foi a das Malvinas. 

Sou o gosto eclético pela música. Sou a filha de uma costureira e de um servidor público que sonharam que seriam comerciantes e que já há 15 anos são. Sou aquela garotinha medrosa, mas cheia de sonhos que queria ser escritora e que sem saber que a sociedade quer impor regras à criação, à arte, escreveu sete livros quando adolescente. Aquela garota que agiu muitas vezes pensando ser amor e descobriu que o mundo não é feito de contos de fadas; mas que podemos com afinidade, sinceridade, fidelidade, respeito, carinho e amor construir relações mais felizes que a de reinos encantados, uma vez que a felicidade não é um estado permanente, mas feita de momento e que a imprevisibilidade da felicidade é que a torna mais valorizável e encantadora. Sou a menina que até os 15 anos não comprava pão na padaria a três quadras de casa e que aos 21 anos derrotou o medo com uma motivação enorme e provou para si mesma que o impossível, quando se define metas, é uma limitação da própria mente.


Liniers


Sou aquela que ama o jornalismo como ele deveria ser e acredita sim que ele possa revolucionar o mundo, o nosso mundo, uma vez que não é de hoje que seu uso tem provocado consequências irreversíveis. Que ama conversar, ama escrever, ama inspirar-se. Sou a que ama incondicionalmente a Deus, a fé, a gratidão. Que ama aos pais, ao irmão, à tia, aos primos, aos amigos. Que ama viajar, a natureza, cachorros (não posso esquecer da minha querida Cristal, de todos os que já tive e de todos que não tenho e sofro quando os vejo abandonados ou morro de rir quando estão acompanhados com o dono fazendo alguma travessura). Ama o voluntariado, crianças, velhinhos, música, as Ciências Humanas e Sociais, a Literatura, a Educação, a Geopolítica, aprender idiomas, falar português, castelhano e inglês. Aquela que volta para o Brasil com um ideal e uma missão, lutar por um mundo mais verdadeiro e cheio de amor na profissão e na vida. Sou a vontade, minha própria loucura, minha opinião, meu cansaço.

Saí um projeto, retorno uma mulher e, embora a palavra possa representar algo grande e acabado, no fundo, só indica mais compromisso com minha própria vida e mais guerras contra minhas próprias imperfeições. Requebro, retorço, resignifico. Serei eterna fênix quantas vezes a vida me transformar em cinzas, quantas vezes eu mesma em cinzas me transformar. Faltam três dias para que eu construa um novo eu, uma nova vida, num novo Brasil aos meus olhos, tendo como base a raiz que continua firma e profunda. Por enquanto, regresso de maneira definitiva. Enquanto isso, devaneios me deixam nostálgica, me trazem alegria, tentam me afundar em tristeza. Assim é a minha vida, assim é feita a vida de todo mundo ou deveria ser: memórias, sonhos, presente, alegrias, tristezas... Dia a dia a gente vai conhecendo, vai aprendendo, vai se moldando.


Pero seguro será la consecuencia de lo que estamos haciendo hoy / Liniers                

Trata-se de algo não concluído, permanentemente mutável, mas agora no final do ano mais incrível da minha vida até agora, eu consigo vislumbrar o quanto caminhei, por fora e por dentro, até chegar aqui.

Tenho 22 anos, há muito para ser feito e aprendido, ainda bem! Bendita oportunidade da vida! O que se foi aprendido nada mais é do que um facilitador para as novas metas e também para os obstáculos no caminho. O mais irônico é que o aprendizado não é novo, mas para ser definitivamente fixado, precisa ser posto constantemente em prática: caminhar sempre tendo em mente a paciência, a resignação, o trabalho honesto, a luta, a confiança, a simplicidade. Porque a felicidade está em sentir amor, este sentimento que é a causa primária de todos os outros. É amando que a nossa vida se enche de cor! E contrariando ao escritor modernista Mário de Andrade, amar é um verbo transitivo direto e indireto: eles amaram, vós amastes, nós amamos, ele amou, tu amaste... Eu amei.


En Punta del Este, antes de virar um camarão...


Fellini y Madariaga, Liniers



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Las armaduras de la huidiza Rapunzel



Las armaduras de la huidiza Rapunzel


(Última edición 23/04/2013 - trabajo para la asignatura de "Liderazgo, Gestión y Organizaciones" - USACh/Chile basado en el libro "El caballero de la armadura oxidada")


La ironia de la posibilidad de felicidad dentro de cuatro paredes. (Foto: Disney)



Jéssica Godoy (Edición "Sapo")

Estoy de nuevo en el pico de un sendero, pero ya no es el mismo. La condición se repite pero no la circunstancia. Es necesario saltar para sumergirme en mis memorias y también tomar coraje para autodescubrirme. El tiempo y el espacio son como un río: el agua siempre corre, pero se bifurca –siempre- como la primera vez.

Érase una vez una chica que nació y creció en una ciudad pequeña del interior de Brasil. Vivió con sus padres, hermano y algunas mascotas en una casa no muy grande. Sufrió bullying en la adolescencia, amores no correspondidos en la niñez y, como Rapunzel, sintió que la hermética protección de sus padres la pusieron en una torre sin puertas. La sensación que la gobernó por aquel entonces –así lo cree- fue la melancolía. Le gustaban los cuentos fantásticos, género por el cual comenzó a escribir. 

Como un juego, escribir para ella siempre fue una diversión y al mismo tiempo una instancia de ensueño. Ejercitar la imaginación, jugar a ser Dios, tener el control sobre las acciones de los personajes creados, y –sobre todo- elegir espontáneamente los nombres de éstos, era lo que más le gustaba. Después llegaría el tiempo de las aventuras, las novelas policiacas y de suspenso. La consigna de escritura nunca dejó de ser la misma: viajar a un mundo intangible, imaginado, propio. 

Adicta a las telenovelas, transitó su infancia contaminada de ficción. Por eso, no pocas veces creyó vivir en la época equivocada, al observar que las personas de su edad tuvieran hábitos en desacuerdo con el ideal que ella nutria. Eso se decepcionaba. 

A sus papás no les gustaba viajar lejos. Un viaje a los trece años a otra provincia fue una de las cosas más importante de su vida hasta entonces. 

He aquí que me suspendo y digo: fue coherente escribir en tercera persona el relato de mi infancia, pero ya no soy más aquella niña de diez años. La vida es una constante metamorfosis, necesito mi primera persona, atrás quedó el pasado. 

La primera vez que yo tuve que enfrentar un “castillo” muy grande fue cuando comencé la escuela primaria. Mi papá me llevó al colegio y cuando entré él se fue. Me acuerdo como si fuera hoy: el ruido del auto partiendo y la saliva engullida en seco. 

Hubo otros momentos también: el ingreso a la facultad, la finalización de un noviazgo. Fue una época muy difícil para mí. Descubrí que no sabía cómo lidiar con la frustración de perder a alguien y aceptar que no era mejor que nadie, que este tipo de cosas me podían también ocurrir. Mis pensamientos y mis lágrimas fueron mis compañeros por algunos meses. Tenía la esperanza de que aquel llanto oxidara parte de mi armadura para así poder tener nuevas perspectivas que me incitaran a crecer. Sentía amargura y no divisaba que aquel mal estaba haciendo de mí un fantasma: sin oportunidades, sin personas alrededor. Un fantasma.

Muchas personas para mi fueron como “Merlín”. Mis amigos, mis papás, mi hermano y mi perrita (que escuchaba también mis lamentos) ayudaron para que se comiencen a percibir en mi sendero algunas señales. A veces alguna canción, otras veces un mensaje en un mural cualquiera, funcionaron como oportunidades para que me hicieran ver que - a pesar de este mundo que no se detiene para que curemos nuestros sufrimientos- es a partir del dolor que nos tornamos más humildes y nuestro alrededor comienza a verse de una manera nunca antes vista. Por ejemplo: conseguí mi licencia para conducir que me dio la oportunidad de viajar –sola- por mi propia ciudad. Empecé a salir con mis amigos y conocí más lugares y más personas que poco a poco fueron convirtiéndose en mis amigos. Ingresé en cursos y en un proyecto voluntario que me hizo más flexible y aún más sensible. Descubrí que la felicidad solo puede ser satisfactoria cuando hacemos felices a otras personas.

Procuré rellenar el vacío que tenía con el supuesto amor de las personas y no percibí que lo que estaba queriendo en verdad con la caridad era la piedad. No tenía conciencia de que para lograr un amor tranquilo es necesario también sentirse como tal. Es como una carretera de dos manos. Antes que todo, antes que nada, faltaba algo esencial: amor propio.

Aquél sueño de chica de viajar, que se hizo posible en cuestión de dos semanas, consistió no obstante en un proceso interior de coraje. Soñaba con un intercambio a Perú, pero resultaba inverosímil en mi mente. Un día encontré un cupo que me encantó y se lo mostré a un amigo: “-Perú o Polonia: en los dos casos –me dijo- vas a estar sola y tendrás que hacer las cosas por ti misma-”. Decidí que quería lograr un paso más grande que mis propias piernas. Hice la entrevista, fui aceptada, compré el pasaje. Me quedé por dos meses, conocí cuatro países, pasé por diversas dificultades. Fue la experiencia más grande de mi vida, me hizo crecer a una velocidad feroz. No encontrando comparación, éste fue el dragón más fuerte y más monstruoso que yo pude confrontar. 

En los castillos que enfrenté tuve que luchar con el silencio en varios momentos. Cuando llegué a Polonia no hablaba bien el inglés, tuve que escuchar más que hablar cosa que en mi vida siempre hice al revés. Sin duda fue la instancia que más aprendí al hablar el idioma. Por otro lado, aprendí mucho sobre el coraje, la humildad, la alegría, la tristeza, la ambición del corazón, las alas de la independencia, del equilibrio y, sobre todo, sobre el amor por sí mismo y por los otros. Notar, finalmente, que siempre somos la causa y no el efecto en cualquier situación de la existencia.

Tan pronto terminé el intercambio, ya estaba al mes siguiente haciendo otro. La segunda vez es siempre más fácil que la primera y de ese modo está aconteciendo aquí, en mi intercambio en Chile. 

En un principio me sentía en una caja de fósforos: cuándo llegué transité un sofocamiento, por no conocer nada ni a nadie. No obstante, las experiencias hasta ahora me han hecho crecer de una forma pavorosa. 

Ahora estoy en el suelo de nuevo. Puedo ver que tengo un ropero de armaduras, de las más diferentes todavía, pero están todas atrapadas en mí. Cada coraza que se oxida, es como un alivio y un paso para el autodescubrimiento y reconocimiento de que soy amor. Tengo que creer más en mis propias potencialidades, porque si no el miedo y la duda me van a consumir. Tengo que escuchar más. Ordenar mejor mi tiempo. Trabajar mejor mis emociones para que no afecten mis actividades del cotidiano. Ver más al desconocido como una invitación al crecimiento. Aceptar y vivir intensamente mi real condición. 

Como el “rey”, es siempre necesario pasar por varios “Senderos de la Verdad”, diría que más que necesario es inevitable, lo mismo para desviarlo o para volver, las circunstancias y la gana de ser y hacer las personas felices nos retornan al sendero. La caminata solo está comenzando, hay una subida ardua por delante, es necesario pasar por los castillos indefinidamente, porque siempre habrá algo por lo que callar, escuchar, aprender, osar y conocer. Alguna parte de la armadura siempre tenderá a oxidarse y si no intentarnos traspasarla, iremos siempre a quedarnos al margen de nosotros mismos.

Não temos Wi-Fi, conversem entre vocês




"Não temos Wi-Fi, conversem entre vocês"


"Si quieres te cuento por qué te quiero. 

Y si quieres cuento por qué no" 






Jéssica Godoy

Antes de tudo, sim: eu sou romântica e falta um mês para que eu me vá. Ontem a latência das sensações me inspirava a conectar palavras e construir sentidos. Pena que eu não tinha luz, lápis ou papel, ou algum dispositivo portátil. Hoje, as palavras escritas me falham, me faltam; em lugar, um vácuo, um perigoso silêncio. Hoje, e não atualmente, tenho uma relação de amor e ódio por elas. Palavras em qualquer das suas expressões comunicacionais podem ser tão profundas e tão rasas; tão marcantes e tão sem sentido.

Justo essa semana que passou, assisti a um documentário que concorreu a um festival no Canadá neste ano, Noah, tem 17 minutos e acontece todo na tela do computador. Para mim, algo inovador. Não exatamente por essas características descritas e sim por trazer uma reflexão acerca da interferência da conectividade virtual nos relacionamentos entre as pessoas. O documentário faz a gente lidar com dois extremos: de um lado, a maravilha de ligar pessoas a todo o momento em qualquer lugar que esteja; de outro, a superficialidade que não deixa de ter essa relação (a falta do contato, as especulações, a falta de exclusividade momentânea das relações - enquanto conversa com a namorada, o rapaz está em site erótico, conversando com um amigo especulando o que a namorada pensa e os rumos da relação -). Em seguida, mostra a invasão de privacidade e a falta de confiança (alicerce de uma relação) quando o namorado invade o perfil de uma rede social da sua parceira para buscar informações que possam confirmar suas suspeitas (?). No fim, depois de ser bloqueado por aquela que se tornou sua ex (como se houvesse essa possibilidade na vida, na mente), passa a buscar salas de chat onde aparecem do outro lado da webcam os tipos mais comuns desse tipo de site. Até que encontra uma desconhecida bacana, trocam uma conversa interessante, mas efêmera. Ela se vai e nem do verdadeiro nome dela ele se inteira. Evidenciando, assim, a utopia, a falta de controle, o extrapolar das vontades reprimidas na vida real (como o que passa ao jogar The Sims), a imperfeição da conectividade e, consequentemente, a intervenção direta na relação entre as pessoas, algo corriqueiro entre os internautas grupo em que também me incluo. O mais chocante é a identificação do público que assiste com o personagem do documentário. A todo o momento parece que nós estamos fazendo aquilo (porque é algo que realmente fazemos, tirando alguns detalhes, agregando outros, mas essencialmente é a mesma coisa) e bate uma vergonha, porque aquela vontade reprimida (justamente porque fazemos escondidos dos olhos do mundo) é posta de maneira nua para que esses mesmo olhos vejam.

Por que esse relato? Acredito que a intenção dos produtores do curta metragem, jovens como eu, assim com a minha agora, não foi a de demonizar a internet, ao contrário. O mundo virtual é sim hoje indispensável para as relações pessoais. Aproximar ou afastar, ajudar ou não depende do modo como esse recurso é usado. Ou seja, demonizamos a maneira como o homem, como ser humano, utiliza a internet. Não demonizamos a extensão de seu cérebro (computador) ou a de suas capacidades comunicacionais (a própria internet). A “pecinha atrás do computador”, como muitas vezes brinca meu pai, é a única responsável pelos problemas nas relações humanas. É seu uso inconsciente, mal-educado, desequilibrado, sem limites, o grande vilão. E não somente entre mundos virtuais, mas entre a transposição de mundos. Explico-me: do mundo virtual ao mundo real e vice-versa. 




A internet como extensão da comunicação cara a cara deve ser vista como tal e não como substituição, muito menos como distração, sabendo que existe uma pessoa, literal e conotativamente, ao seu lado para dialogar, para dar e receber a mesma atenção. A comunicação presencial é a única em que realmente se pode sentir o que passa a partir de um olhar (como o outro se sente, e não - nunca - o que realmente se passa na cabeça do outro). Essa comunicação não é só feita de palavras, é feita de suspiros intermináveis, gestos e expressões únicas, cheiros inconfundíveis, carinho também único, do tom da voz, de toques e arrepios, de sorrisos espontâneos, de lágrimas, vibrações, sentimentos. E por ser única, é, sem dúvida, uma raridade, desfrutá-la não tem preço.

Pensamentos soltos... Wi-Fi. Distância. Dois dias. Cara-a-cara. Raridade. Relógio. Ânimo. Presença. Oportunidade. Vínculo. Conversas. Amizade. Amor. Expectativas. Memória. Hospitalidade. Encontro. Celular. Desculpas. Omissões. Ciúmes. Dois sentimentos paradoxais misturados: tristeza e alegria. Duas pessoas. Bem, na verdade três. Duas pessoas pessoalmente. Relógio. Ausência. Ausências. Superficialidade. Lonjura. Desânimo. Silêncio. Celular. Uma pessoa virtualmente. Culpa. Um livro. Dedicatória. Relógio. Desinteresse. Regresso. Celular. Mensagens virtuais. Arrependimento. Desperdício. Carência. Anos-luz. Abatimento. Angústia. Vazio. Rejeição. Fim. Inconformada, eu suspiro.

Faltaram abraços, mas mais do que isso, onde estavas? Faltou mesmo conexão, e não me refiro a do Wi-Fi, que teve de sobra. Também não encontrei a mim em muitos momentos, encontrei foi um masoquista e incontrolável monólogo, mental. Muito menos a nós, num sentido muito mais amplo do que se poderia querer julgar. Não sei o que responder, tampouco tenho vontade. Nessas horas, palavras não conseguem ser mais fortes do que atitudes. Nem mesmo seria uma carta de um quilômetro toda escrita “eu te amo”. Palavras são vãs diante de atitudes que não as justificam. Atitudes são marcantes diante de palavras que não as justificam. O equilíbrio saudável estaria nas duas, palavras e ações, condizerem reciprocamente. Não sabe o que quer, eu sei que isso não quero. Não te esquecerei. Não me esquecerás. De nada, nem disso. A não ser que tenhamos Alzheimer. Escreverei um livro: um conto sempre conta dois contos? A Semiótica de Peirce diria talvez uns tantos mais. Um signo gera outro signo e assim sucessivamente. A história de dois amantes que, no final (da existência e não da história em comum) ela sofra de Alzheimer, ela! Talvez essa inspiração nada mais seja a vontade de que o esquecimento exista, da minha parte, e também a transpiração do egoísmo meu ao desejar que, durante meu esquecimento, recordes de tudo. Hipóteses. Especulações. Malditas especulações. Enquanto isso vivo com a vontade de, parafraseando uma canção argentina, voar para o lado de quem "me queira" de verdade. Claro, "te quiero" no sentido da língua espanhola que, assim como a palavra "saudade" da língua portuguesa, há talvez uma aproximação, nunca uma tradução. Voar como símbolo de liberdade, da consciência de que, mais do que ser, sentir-se livre é como se abraçar o mundo fosse mais do que uma ingênua ilusão.

Quanto ao Wi-Fi, mais do que respeito e educação, desligá-lo e conversar entre si, é uma questão de consideração. Os dois primeiros tem a ver com ética, o segundo, pessoalmente falando, com amor. E se já não há a espontaneidade do amor, já nada mais vale à pena.




"Marina Abramović y Ulay tuvieron una apasionada relación amorosa en la década de los 70's. Cuando sintieron que se extinguía, hicieron un pacto: recorrerían la Muralla China, cada quién desde un extremo para encontrarse en el centro, darse un fuerte abrazo y no volver a verse. 

Muchos años después ella expuso su arte en el Museo de arte MoMa de New York.

Como parte de la exhibición, ella se sentaría un minuto en silencio y solo mirándose a los ojos expresarían su sentir después de haber visto la exposición, frente a ella. Observa lo que pasó cuando sorpresivamente, él se sentó..." 

A tale of a not so unknown man


 A tale of a not so unknown man


One of this stories which, more than in our mind, happens materializing itself in cold sands...


Jéssica Godoy


That was a gray afternoon. Sky with your stacked clouds announced a thunderstorm. At first, I only could see a black pair of shoes walking slowly by a stone’s street. And then, I could see the man. He’d worn a long brown coat, on his head an old beret. Just one hand had taken a glove, the other one hadn’t appeared: maybe he didn’t have it by birth, by a guilty of a specific moment, maybe because his hand had been closed and the sleeve coat hid it, maybe not those one, it just had been fool suppositions.

The first drops of rain had started to fall down touching those ancient huge dark walls and had melted a mix of snow and mud in some wells in the sidewalk and the street. A freezing wind turned his lips into violet. He had continued walking with the same speed that before. In a suddenly moment, he had stopped, had looked in front, “Wroclaw” was written in a place that looked like a train station. He had breathed deeply and, then, closed his black eyes of restless look, which was confirmed dark circles bellow them.

I’m sure, he was a foreigner in Poland like me. Absolutely not by some aspects of his personality, described in that moment by gestural communication, after all, taking off the morals and culture, people are the same everywhere, but definitely because of his physical appearance.

Had he missed someone, more than one, only one? For what kind of experience did he pass? He had seemed worried about, but I won’t know what or why. It was crazy. Not because he was originally from another country, maybe so far from here, because obviously he could have come here when he was a child… But the loneliness had called the attention, not just because he was without a partner, a group of people, a woman, a man, a child, a pet, but definitely his attitudes had shown he missed something. He had gone on to walk by the way would take him to the station. But he’d hesitated for a moment and had come back. He had stopped for a while in a tram stop on the sidewalk. He waited for two unending minutes, stopped. He’d picked “the number 9” and had disappeared in a middle of people what was dressed like him.

What happened, what had happened, what will happen with the guy? He had been an unknown man, who had distracted my attention for around a half hour. Some people in our life distract us and we don’t know why. Maybe we know. Maybe we try to hide from ourselves. Maybe this sort of person carries with himself some part of us, we share with them the same (or seems to be the same) desires, fears, motivation, affliction. It means a state of contemplation of us by another (person), a kind of mirror, to see an outside situation in order to look better inside of us. In order to reorganize our thoughts, feelings, or to try to understand them. Sometimes it is masochism masked by a fake pleasure, or is nostalgia, and if this is confirmed, sadly it can’t be fixed. I’ve just continued on my way, crossed the street, I’ve pressed my bones together trying to keep warm. “This night is really freezing”, I thought. I rang the bell, the third floor. Above me, a sign “Babel Hostel”. My thoughts just had been fixed in sensory sensations on that piece of moment. I looked for my hand, I’d been without gloves. I’d supposed the way until the Fresh Market would be fast, it was in the middle of the block. We never suppose how many opportunities or casual things can happen in a little time, in a short distance. I’ve started to think that the nature of things helps us to leave aside, even it happens for a moment, some worried thoughts. My attention, my thoughts, my body had just looked for that cold. The door is opened. And I’ve entered fast. I’ve left behind the wind, not myself. I’m not sure if I amazed it or not. Could I understand me? And you? Some months later, someone is going to tell me a statement someone told him sometime: “a tale always tells two tales”. Now it is more understandable. Could you?


domingo, 15 de setembro de 2013

A vida é o trem, não as estações


A vida é o trem, não as estações


“Saudade é amar um passado que ainda não passou,

É recusar um presente que nos machuca,

É não ver o futuro que nos convida”.

(Pablo Neruda)


Jéssica Godoy






(Que dificuldade em começar esse texto em Português! Ou penso em uma expressão Castelhana e que ficaria esquisito em minha língua materna, ou aparece inconvenientemente uma palavra escrita no meio de uma frase na tal língua estrangeira).

“É o ano da sua vida”, alguns dizem. É sim um ano de muita informação e muito crescimento. Eu sonhei com isso, eu pedi por isso, eu lutei por isso, contra os dragões do caminho e do medo. A despedida no Chile trouxe um esgotamento psicológico, uma fadiga. Os reencontros no Brasil e a adaptação na Argentina também. Eu já previa tudo isso. Somados ao pouco tempo para digerir isso tudo. Foram só 21 dias entre tantas mudanças. Sim, a preparação estava acontecendo desde o meio do segundo intercâmbio e ainda um mês e uma semana depois não me sinto adaptada aqui, agora. É um processo, eu entendo. Um luto. Assim dizer, o luto é necessário, é saudável, mas temos que entender a hora de lhe por um fim. Isto é, tem seu tempo de começar, tem seu tempo de terminar. Luto por um amor perdido por circunstâncias diversas, luto por uma vida temporária, mas que no conjunto é um pedaço do todo. O fim é a ressignificação que aprendi nessa temporária vida de intercâmbio, como a chamo. O amor perdido é o transformado, que seja em uma grande amizade. As situações vividas são as transformadas, que sejam em maduras experiências e nostálgicas memórias. Sim, o futuro que tanto temi é hoje e é sim, apesar do novo, um efeito do ontem. Aprender a lidar, viver é escolher, ganhar, renunciar, lidar com consequências.

Nesses dias atrás, numa sugestão pra uma amiga, reflexionei que às vezes a vida pode começar com uma viagem e também se acaba com uma, é o que a gente chama de adaptação e readaptação. Não só de uma viagem exterior, mas de uma viagem por dentro. De se conhecer, de se aprimorar, de criar, de recriar valores, visões, de recriar-se. A vida é uma eterna soma das duas coisas (adaptar e readaptar), mais intensificada ainda, ou talvez mais latente, no meu caso, por três intercâmbios (praticamente) seguidos. Viajar é a materialização de um sonho, de um desejo e não a continuação de um hábito meu. Do frio intenso do leste europeu, para as terras banhadas pelo gelado Pacífico e separadas por uma cordilheira até o outro lado dela, terras cortadas pelo rio de La Plata e contornadas pelo Atlântico sul de queridos amigos. Sim, 21 dias após uma experiência memorável de uma forma tão incrível e que não sonhei viver depois da Polônia, a experiência chilena, (onde fiz grandes amigos e muitos deles argentinos) aqui estou há um mês e uma semana em solo argentino, fazendo o mesmo programa de intercâmbio do Chile, mas vivendo uma experiência inédita e inimaginável em muitos aspectos. Falando um castelhano já esperado, confirmando perfis, surpreendendo com ritmos, lembrando reggaetones que lembram pessoas que lembram momentos, sentindo falta de rostos e vozes e gestos e presenças...

“Sóla con el olvido...” – Escutando o mexicano Maná; maravilhando-me com Liniers; não tirando a blusa da Mafalda do corpo; apaixonada por Persiana Americana para curtir, Cumbia Villera para dançar, Darín e Villamil para assistir; ampliando meus conceitos de Comunicação como profissão e ciência e entendendo que a união que Bolívar propunha da América Latina faz todo o sentido para conquistar o desenvolvimento dessa mesma américa e isso inclui também do Jornalismo; entristecendo-me por um sentimento de solidão, irritando-me com o frio (que já está acabando, mas que deu lugar a uma chuva insistente) e mais precisamente com assuntos como futebol ou a minha falta de tolerância ou a falta de humildade de alguns em reconhecer que brigadeiro não é parecido com mais nada que eles possam ter; tudo isso é o reflexo mais ou menos do que vivo e de como me sinto aqui.


Uma pausa. Uma notícia. Neste momento, ao saber do presente de um amor passado, sentimentos antagônicos se dividem em um nervosismo que me perturba e uma felicidade que me contagia e se libera: por ele que refez sua vida, por mim que resignifiquei o amor que achava que não iria mudar nunca, por nós que crescemos mesmo seguindo caminhos diferentes. Chile, obrigada por isso também. Depois do “nossa!” e nenhuma palavra a mais inicial, resolvi deixar o riso tímido e espontâneo e a felicidade tranquila prevalecerem.

Dois meses foi o tempo em que eu estive na Polônia. Farão dois meses em dois dias que deixei o Chile. O quanto se pode aprender vivendo no presente e o quanto se pode deixar de aprender vivendo no passado na mesma quantidade de meses. Não que eu não tenha aprendido nada agora, aprendemos muita coisa também na ausência de intensidades vividas e na presença de intensidades sentidas no coração e na mente, que é o meu caso atual.

Dois dias para uma data relevante. Aniversário de duas grandes amigas, dois anos do primeiro beijo nesse amor passado que tanto me impulsionou (o que alguém um dia me disse “amor próprio projetado” e que foi quando todo o sentimento passou a ter mais sentido, quando a resignificação encontrou um caminho) e dois meses exatos desde que deixei o Chile.

Quanto aos meus intercâmbios, pensam e eu também pensava que o terceiro seria ainda mais fácil. Em muitas coisas sim, mas também se trata da soma do turbilhão dos dois primeiros e nisso é muito mais difícil. Olho seus fins e penso: não aguento mais viver coisas temporárias, estou precisando viver coisas mais perenes. Mas replico: mesmo em uma vida de aparentes coisas duradouras, a nossa reciclagem, de outras pessoas, de lugares dentro desse lugar maior faz que essa mesma vida duradoura renove-se ao fim de cada ciclo, assim é Bauru para mim. Ou seja, a temporalidade é uma característica da vida e não somente de situações como as que vivi e vivo neste ano.

Cada ciclo em um lugar são estações, cada estação representa um lugar. As estações fazem parte da trajetória do trem. Cada uma conta uma história de quem entra, de quem sai, de quem permanece só na mente e no coração e de quem continua participando ao nosso lado, presentes (no coração, na mente e virtual ou fisicamente). Em algumas, a gente se detém um pouquinho mais, outras um tantinho menos. Ao final, a vida será esse movimento e cada uma das estações comporão a viagem eterna, que não termina nem com a morte, que também é uma estação.

Os auto falantes já anunciaram: estação Argentina. O trem já deu a largada há um mês e uma semana; peguei minhas malas da estação chilena; acenei o adeus pela janela, deixei de olhar pelo vidro; tomei fôlego e coragem para entrar de vez nessa nova parada. De vez em quando darei uma olhada nas fotos (que representam decisões e as relações que fiz com cada pessoa que cruzou no meu caminho – e que cruzei no caminho delas) e um misto de sentimentos virão, cada vez com um olhar diferente. Mas não posso viver de nostalgia. E por isso, deixo o luto de lado, desço do trem, são mais de três meses pela frente, admiro e abraço o novo, com cuidado, consciente. O tempo não para, o tempo caminha sempre em frente.

Como diria Laísa quando estávamos no Chile: “O passado parece sempre melhor do que realmente foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será”.

Sentia-me perdida. Às vezes a gente precisa se perder pra se encontrar e é me perdendo que eu escrevo e é escrevendo que eu me encontro.




"A tu casa yo fui 
Y no te encontré
En el parque, en la plaza, en el cine yo te busqué,
Te tengo atrapada entre mi piel y mi alma
Más ya no puedo tanto y quiero estar junto a ti"... 

Chi, Chi, Chi, le, le, le... Viva (el grande) Chile!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

11-04-2013 - Este é só o início de um ano eleitoral no Chile

11-04-2013 - Marcha pela Educacao em Santiago do Chile


E é quando o almejante a jornalista está em campo, fazendo o caminho oposto da notícia, que ele se fascina ao constatar que o que via nos meios de comunicacao, mesmo que em versoes e, portanto, baseado em uma realidade, era mais real do que um dia pode imaginar.


Jéssica Godoy



Primeiramente peco desculpas pela ortografia. Meu computador resolveu dar PT e estou usando temporariamente um de um argentino.

Alguns dias sao de TPM com a carreira escolhida e outros de flores, como hoje. Nunca pensei que diría isso com tamanha conviccao, até eu mesma estou acreditando que estou no caminho certo. Nao fui a marcha para resolver pendencias urgentes e pessoais, mas foi como se eu estivesse a partir do relato de duas intercambistas do Brasil também, estudantes de psicología, que estiveram. E como estou aqui e fui na anterior, fica ainda mais fácil e mais emocionante imaginar como tudo se sucedeu.

Por fim, para nao passar despercebido e pela falta de tempo, fica uma nota aos moldes do jornalismo digital:


11-04-2013 - Santiago, Chile.

Jéssica Godoy

Em resumo, hoje foi mais um dia histórico para o Chile.
Milhares de estudantes e pessoas de diferentes faixas etárias com cartazes e cantos de protesto tomaram as ruas do centro da capital Santiago na segunda manifestação em duas semanas pela educação pública e, de pressuposto, gratuita no país.
E, enfim, os manifestantes puderam marchar do início ao f...im previsto, garantindo o direito de liberdade de expressão.
Sendo ano de eleição presidencial, reacende-se as esperanças de mudanças nos rumos do cenário atual e espera-se novos protestos nas ruas e paralizações universitárias.

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En resumen, hoy fue más un día histórico para Chile. 
Muchos estudiantes y personas de distintos grupos de edad con carteles y cantando tomaron las calles del centro de la capital Santiago en la segunda manifestación en dos semanas por la educación pública y gratuita en el país.
Finalmente, los manifestantes pudieron marchar desde el inicio hasta el fin previsto, asegurando el derecho de libertad de expresión.
Este es año de elección presidencial, por tanto se reaviva las esperanzas de cambios en los caminos del escenario actual y se espera nuevos protestos en las calles y paros universitarios.

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Summarizing, today was another important day for Chile.
A lot of students and people of different ages with posteres and singing went out by streets at center of Santiago. That is the second manifestation in two weeks for public and free education in that country. 
Finally, protesters can walk since the beggining to the end, which was provided before, guaranteeing the right to freedom of expression.
This is a president election year; It means hope to change the actual scenery of country and wait for new manifestations in the street and shutdowns at universities.

sexta-feira, 29 de março de 2013

“Lo importante es mantener vivo el espíritu de lucha”



“Lo importante es mantener vivo 
el espíritu de lucha”


Que tal falar a partir do principal motivo de eu estar aqui no Chile, o Jornalismo, e fazer um artigo de opinião sobre um assunto que é forte aqui?



Jéssica Godoy

Ontem fez exatamente três semanas desde que cheguei. Quer assunto melhor pra começar a falar da experiência universitária no Chile que relatando a primeira (?) (segundo os meios de comunicação daqui. Lía Ignacia e Caterine Luco, estudantes de Jornalismo de uma Universidade daqui, disseram ser essa a segunda, enfim) manifestação estudantil deste ano (importante mencionar, autorizada pela Intendência Metropolitana de Santiago)? 




Histórico



O atual presidente do Chile é Sebastián Piñera. 2013 é um ano de eleições e de esperança de novos rumos para o país, no caso dos estudantes, esperança de mudanças no sistema educacional. 

O motivo. Em linhas gerais, o ensino universitário é dividido em privado e subvencionado. É pela segunda divisão que estudantes Universitários lutam contra (de acordo com as estudantes Lía e Caterine, secundaristas também, mas mais para agregar aos números, não porque realmente tenham um motivo ou sabem o porquê lutam por ele), e são a favor de um ensino público e, como pressuposto, gratuito, além de mais vagas nas universidades públicas. Subvencionado significa que o ensino é público, mas não é gratuito de fato; as Universidades públicas aqui são autônomas financeiramente. 

“Um estudante de Jornalismo, com bolsa, paga 200.000 pesos pelos quatro anos. Um sem bolsa paga 2.000.000 de Pesos”, exemplifica Lía. Sintetizando a explicação das estudantes “é público, porque o prédio é patrimônio público, porque o governo sede algumas bolsas para os estudantes, paga algum reparo na Universidade e também o salário de alguns professores. Autônomo, porque mesmo com bolsa a faculdade é paga pelos alunos. Além disso, não há muitas vagas com bolsas.”. 

Em 2011, a Ministra do Trabalho, Evelyn Matthei disse (vide um dos jornais esquerdistas e um dos mais críticos do país): http://www.theclinic.cl/2011/10/21/evelyn-matthei-me-opongo-totalmente-a-la-gratuidad-en-el-sistema-universitario/Concluindo a declaração de Evelin Matthei, Caterine resume: “ou seja, nosso país não tem conceito de ‘Público’”.




A marcha



Cheguei ao prédio de “Periodismo” e encontrei-me com mais três estudantes lá às 10h da manhã, hora prevista para o início da marcha. Seguimos em direção à manifestação, não fomos para protestar, queria era observar e sentir o espírito de uma marcha como essa em um país em que o movimento estudantil é muito forte. Acompanhei a manifestação desde o início que partiu da Estação Central do metrô na Avenida Libertador General Bernardo O'Higgins. 

Para mim foi uma experiência memorável, uma vez que não esperava aquele mar de jovens. Segundo alguns jornais daqui a marcha contou com cerca de quatro mil estudantes. 

Senti-me como na época da ditadura, vendo os “carabineiros”, os polícias, e alguns tanques cercando ruas e nos mostrando o caminho pelo qual deveríamos seguir com a marcha. Faixas, bandeiras de partidos políticos, tambores, gritos, cantos... Olhava para o rosto de cada um deles e me identificava, estudantes como eu, jovens como eu, lutando pelos próprios direitos! 

Logo na primeira virada, alguns estudantes e vândalos quiseram avançar em direção à polícia, por uma rua que estava cercada. Foi aí que liberaram gás lacrimogêneo e houve correria e tumulto entre os jovens (alguns passaram com a mão no rosto), mas não durou por muito tempo. Em seguida, jatos de água começaram a ser liberados. Vândalos começaram a aproveitar da situação e pixar muros, sem frases de protesto, apenas com assinaturas. Alguns cidadãos saíram de suas casas e se mantiveram na calçada observando os jovens juntos pelas ruas. De acordo com os estudantes chilenos que estavam comigo, alguns jovens vestiam a cabeça com “panuelos”, mas não eram manifestantes. Eram “delinquentes” que se aproveitavam da situação para provocar algazarra. 

A marcha foi interrompida na metade do trajeto. Um batalhão da polícia fechou todas as ruas ao redor, formando um cerco. Naquele momento vi duas mulheres representantes dos Direitos Humanos no Chile e perguntei qual era a função delas ali, o que me responderam: “somente observamos e denunciamos qualquer tipo de violência, de qualquer lado”. 

Seguimos pela calçada de uma das ruas. Quando finalmente escapamos do cerco, a polícia fechou também as calçadas e começou a cercar os que ainda restavam na marcha por todos os lados. Tanques de água foram usados mais uma vez para dispersar os manifestantes. 

A marcha durou, mais ou menos, uma hora e meia. 



Mídia chilena x Mídia brasileira



O que coube aos jornais chilenos relatar? Marcha termina com 60 presos, disse o jornal La hora: http://www.lahora.cl/2013/03/28/01/noticias/pais/9-23390-9-60-detenidos-dejo-primera-marcha-estudiantil.shtml. Não encontrei nada sobre a marcha em outros. 

No jornal Folha: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1253938-milhares-de-estudantes-chilenos-protestam-em-passeata-marcada-por-confrontos.shtml. O texto é bem explicativo, mas observe as fotos escolhidas, (é bom também salientar que são de uma agência de notícias). 

Outro de O Globo: http://oglobo.globo.com/mundo/milhares-de-estudantes-retomam-protestos-no-chile-7973166. 

O que mais se encontra na internet é arquivo de matérias das manifestações estudantis frequentes de 2011. 

Não preciso dizer nada. Deixo à reflexão. 



Consequências e conclusão



Perguntei à Caterine se haveria uma consequência da manifestação, se a mídia divulgaria o acontecido. Ela, assim como todos eles, lidava com o que estava acontecendo com uma naturalidade incrível, disse: “em 2011 quando a onda de protestos eclodiu, a mídia sempre relatava. Uma só marcha não muda nada, o que muda é a frequência com que as fazemos. Mas é importante fazer, mesmo que aparentemente e de imediato não haja resultados, para manter vivo o espírito de luta! Se nos calarmos eles sempre vão pensar que está tudo bem”. Esta última declaração me marcou muito, já que não é forte, como aqui, o movimento estudantil no Brasil atualmente, de maneira geral (apesar de não gostar de generalizações) e me incluo nisso, somos extremamente despolitizados, passivos, adeptos do “deixa como está, pra que mexer? Assim está bom!”. Manifestamos sim, mas por outras coisas. Não podemos também comparar o contexto histórico e a realidade atual do Brasil com o Chile. Lidamos com muito mais miscigenação que eles durante nossa história, nossas lutas atuais e emergenciais são outras; embora, sim, seja extremamente importante nós estudantes lutarmos pela nossa educação pública, não taparmos os olhos para a realidade da educação básica, que sofre além de problemas de estruturas, problemas no ensino, de falta de vagas em Universidades Públicas que abriga em sua grande maioria a classe média, de verbas, de salários mal pagos aos professores. Atualmente lutamos muito no Brasil contra o preconceito à mulher, ao negro, ao homossexual, pelo desenvolvimento sustentável, pela causa dos animais. Não desmerecendo ou valorizando a importância, de maneira distinta uma das outras, de nenhum tipo de manifestação, mas sim procurando mostrar que devemos valorizar como igual qualquer tipo de marcha! Que também devemos manter vivo o espírito de luta, organizarmo-nos, sairmos às ruas, lutar com consciência do que queremos, com respeito, uma vez que exigimos respeito quando queremos que nossos direitos sejam na prática cumpridos. E não nos calarmos, ou discutirmos apenas dentro das Universidades e entre amigos nas mesas de bares. 

Segundo eles, a população no Chile é extremamente marginalizada e quem entra em Universidade é, em sua grande parte, a classe média. A outra parte da população faz um curso em um Instituto Técnico ou se arriscam em Universidades Privadas sem nome, ou ainda não se especializam de alguma forma. 

Outro ponto que merece ser enfocado, como disse uma brasileira que viveu um ano em Córdoba e se vinculou à Movimentos Estudantis na Argentina: “Aqui não deixam as pessoas se expressarem. Mostram o caminho pelo qual devem seguir, interrompem a marcha ao meio”. 



Memória – Brasil (USP episódio PM no Campus de 2009) – O motivo é totalmente outro, mas não deixa também de ser uma marcha estudantil.

Vídeo gravado por uma pessoa que estava no momento da manifestação dentro do Campus: http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ 

Procure como é tratado o caso pelos principais veículos do Brasil e note como há parcialidade e conservadorismo, uma vez que os próprios manifestantes não são entrevistados. 

Até quando? 

Abaixo, fotos tiradas por mim da manifestação estudantil de ontem (28/03/2013): 

Início da Marcha - Carabineiros cercam um lado da avenida e mostram o caminho para seguir






UNE - Unión Nacional Estudiantil








Cerca de 4.000 estudantes tomam as ruas para manifestar pela Educação do Chile na capital Santiago



Primeiro conflito com os carabineiros. Motivo: a marcha deveria ser desviada à direita e manifestantes seguiam em direção à polícia










Pixadores aproveitam a ocasião para vandalismos


No cartaz, "Bienvenidos - Santiago Capital de la Educación Pública"





Federación de Estudiantes de Universidad de Chile que tem como presidente Camila Vallejo.

Fim da marcha. Carabineiros interrompem continuação dos manifestantes

Representantes dos Direitos Humanos observam e denunciam violência


Conflito entre carabineiros e manifestantes que resistiram ao fim da marcha



Após o fim da marcha, Ainda há a presença de carabineiros nas redondezas

Carabineiros fecham um das calçadas que dá acesso ao lugar onde a marcha foi interditada