sexta-feira, 29 de março de 2013

“Lo importante es mantener vivo el espíritu de lucha”



“Lo importante es mantener vivo 
el espíritu de lucha”


Que tal falar a partir do principal motivo de eu estar aqui no Chile, o Jornalismo, e fazer um artigo de opinião sobre um assunto que é forte aqui?



Jéssica Godoy

Ontem fez exatamente três semanas desde que cheguei. Quer assunto melhor pra começar a falar da experiência universitária no Chile que relatando a primeira (?) (segundo os meios de comunicação daqui. Lía Ignacia e Caterine Luco, estudantes de Jornalismo de uma Universidade daqui, disseram ser essa a segunda, enfim) manifestação estudantil deste ano (importante mencionar, autorizada pela Intendência Metropolitana de Santiago)? 




Histórico



O atual presidente do Chile é Sebastián Piñera. 2013 é um ano de eleições e de esperança de novos rumos para o país, no caso dos estudantes, esperança de mudanças no sistema educacional. 

O motivo. Em linhas gerais, o ensino universitário é dividido em privado e subvencionado. É pela segunda divisão que estudantes Universitários lutam contra (de acordo com as estudantes Lía e Caterine, secundaristas também, mas mais para agregar aos números, não porque realmente tenham um motivo ou sabem o porquê lutam por ele), e são a favor de um ensino público e, como pressuposto, gratuito, além de mais vagas nas universidades públicas. Subvencionado significa que o ensino é público, mas não é gratuito de fato; as Universidades públicas aqui são autônomas financeiramente. 

“Um estudante de Jornalismo, com bolsa, paga 200.000 pesos pelos quatro anos. Um sem bolsa paga 2.000.000 de Pesos”, exemplifica Lía. Sintetizando a explicação das estudantes “é público, porque o prédio é patrimônio público, porque o governo sede algumas bolsas para os estudantes, paga algum reparo na Universidade e também o salário de alguns professores. Autônomo, porque mesmo com bolsa a faculdade é paga pelos alunos. Além disso, não há muitas vagas com bolsas.”. 

Em 2011, a Ministra do Trabalho, Evelyn Matthei disse (vide um dos jornais esquerdistas e um dos mais críticos do país): http://www.theclinic.cl/2011/10/21/evelyn-matthei-me-opongo-totalmente-a-la-gratuidad-en-el-sistema-universitario/Concluindo a declaração de Evelin Matthei, Caterine resume: “ou seja, nosso país não tem conceito de ‘Público’”.




A marcha



Cheguei ao prédio de “Periodismo” e encontrei-me com mais três estudantes lá às 10h da manhã, hora prevista para o início da marcha. Seguimos em direção à manifestação, não fomos para protestar, queria era observar e sentir o espírito de uma marcha como essa em um país em que o movimento estudantil é muito forte. Acompanhei a manifestação desde o início que partiu da Estação Central do metrô na Avenida Libertador General Bernardo O'Higgins. 

Para mim foi uma experiência memorável, uma vez que não esperava aquele mar de jovens. Segundo alguns jornais daqui a marcha contou com cerca de quatro mil estudantes. 

Senti-me como na época da ditadura, vendo os “carabineiros”, os polícias, e alguns tanques cercando ruas e nos mostrando o caminho pelo qual deveríamos seguir com a marcha. Faixas, bandeiras de partidos políticos, tambores, gritos, cantos... Olhava para o rosto de cada um deles e me identificava, estudantes como eu, jovens como eu, lutando pelos próprios direitos! 

Logo na primeira virada, alguns estudantes e vândalos quiseram avançar em direção à polícia, por uma rua que estava cercada. Foi aí que liberaram gás lacrimogêneo e houve correria e tumulto entre os jovens (alguns passaram com a mão no rosto), mas não durou por muito tempo. Em seguida, jatos de água começaram a ser liberados. Vândalos começaram a aproveitar da situação e pixar muros, sem frases de protesto, apenas com assinaturas. Alguns cidadãos saíram de suas casas e se mantiveram na calçada observando os jovens juntos pelas ruas. De acordo com os estudantes chilenos que estavam comigo, alguns jovens vestiam a cabeça com “panuelos”, mas não eram manifestantes. Eram “delinquentes” que se aproveitavam da situação para provocar algazarra. 

A marcha foi interrompida na metade do trajeto. Um batalhão da polícia fechou todas as ruas ao redor, formando um cerco. Naquele momento vi duas mulheres representantes dos Direitos Humanos no Chile e perguntei qual era a função delas ali, o que me responderam: “somente observamos e denunciamos qualquer tipo de violência, de qualquer lado”. 

Seguimos pela calçada de uma das ruas. Quando finalmente escapamos do cerco, a polícia fechou também as calçadas e começou a cercar os que ainda restavam na marcha por todos os lados. Tanques de água foram usados mais uma vez para dispersar os manifestantes. 

A marcha durou, mais ou menos, uma hora e meia. 



Mídia chilena x Mídia brasileira



O que coube aos jornais chilenos relatar? Marcha termina com 60 presos, disse o jornal La hora: http://www.lahora.cl/2013/03/28/01/noticias/pais/9-23390-9-60-detenidos-dejo-primera-marcha-estudiantil.shtml. Não encontrei nada sobre a marcha em outros. 

No jornal Folha: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1253938-milhares-de-estudantes-chilenos-protestam-em-passeata-marcada-por-confrontos.shtml. O texto é bem explicativo, mas observe as fotos escolhidas, (é bom também salientar que são de uma agência de notícias). 

Outro de O Globo: http://oglobo.globo.com/mundo/milhares-de-estudantes-retomam-protestos-no-chile-7973166. 

O que mais se encontra na internet é arquivo de matérias das manifestações estudantis frequentes de 2011. 

Não preciso dizer nada. Deixo à reflexão. 



Consequências e conclusão



Perguntei à Caterine se haveria uma consequência da manifestação, se a mídia divulgaria o acontecido. Ela, assim como todos eles, lidava com o que estava acontecendo com uma naturalidade incrível, disse: “em 2011 quando a onda de protestos eclodiu, a mídia sempre relatava. Uma só marcha não muda nada, o que muda é a frequência com que as fazemos. Mas é importante fazer, mesmo que aparentemente e de imediato não haja resultados, para manter vivo o espírito de luta! Se nos calarmos eles sempre vão pensar que está tudo bem”. Esta última declaração me marcou muito, já que não é forte, como aqui, o movimento estudantil no Brasil atualmente, de maneira geral (apesar de não gostar de generalizações) e me incluo nisso, somos extremamente despolitizados, passivos, adeptos do “deixa como está, pra que mexer? Assim está bom!”. Manifestamos sim, mas por outras coisas. Não podemos também comparar o contexto histórico e a realidade atual do Brasil com o Chile. Lidamos com muito mais miscigenação que eles durante nossa história, nossas lutas atuais e emergenciais são outras; embora, sim, seja extremamente importante nós estudantes lutarmos pela nossa educação pública, não taparmos os olhos para a realidade da educação básica, que sofre além de problemas de estruturas, problemas no ensino, de falta de vagas em Universidades Públicas que abriga em sua grande maioria a classe média, de verbas, de salários mal pagos aos professores. Atualmente lutamos muito no Brasil contra o preconceito à mulher, ao negro, ao homossexual, pelo desenvolvimento sustentável, pela causa dos animais. Não desmerecendo ou valorizando a importância, de maneira distinta uma das outras, de nenhum tipo de manifestação, mas sim procurando mostrar que devemos valorizar como igual qualquer tipo de marcha! Que também devemos manter vivo o espírito de luta, organizarmo-nos, sairmos às ruas, lutar com consciência do que queremos, com respeito, uma vez que exigimos respeito quando queremos que nossos direitos sejam na prática cumpridos. E não nos calarmos, ou discutirmos apenas dentro das Universidades e entre amigos nas mesas de bares. 

Segundo eles, a população no Chile é extremamente marginalizada e quem entra em Universidade é, em sua grande parte, a classe média. A outra parte da população faz um curso em um Instituto Técnico ou se arriscam em Universidades Privadas sem nome, ou ainda não se especializam de alguma forma. 

Outro ponto que merece ser enfocado, como disse uma brasileira que viveu um ano em Córdoba e se vinculou à Movimentos Estudantis na Argentina: “Aqui não deixam as pessoas se expressarem. Mostram o caminho pelo qual devem seguir, interrompem a marcha ao meio”. 



Memória – Brasil (USP episódio PM no Campus de 2009) – O motivo é totalmente outro, mas não deixa também de ser uma marcha estudantil.

Vídeo gravado por uma pessoa que estava no momento da manifestação dentro do Campus: http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ 

Procure como é tratado o caso pelos principais veículos do Brasil e note como há parcialidade e conservadorismo, uma vez que os próprios manifestantes não são entrevistados. 

Até quando? 

Abaixo, fotos tiradas por mim da manifestação estudantil de ontem (28/03/2013): 

Início da Marcha - Carabineiros cercam um lado da avenida e mostram o caminho para seguir






UNE - Unión Nacional Estudiantil








Cerca de 4.000 estudantes tomam as ruas para manifestar pela Educação do Chile na capital Santiago



Primeiro conflito com os carabineiros. Motivo: a marcha deveria ser desviada à direita e manifestantes seguiam em direção à polícia










Pixadores aproveitam a ocasião para vandalismos


No cartaz, "Bienvenidos - Santiago Capital de la Educación Pública"





Federación de Estudiantes de Universidad de Chile que tem como presidente Camila Vallejo.

Fim da marcha. Carabineiros interrompem continuação dos manifestantes

Representantes dos Direitos Humanos observam e denunciam violência


Conflito entre carabineiros e manifestantes que resistiram ao fim da marcha



Após o fim da marcha, Ainda há a presença de carabineiros nas redondezas

Carabineiros fecham um das calçadas que dá acesso ao lugar onde a marcha foi interditada

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