Nos 45 do segundo tempo
Foi um misto de melancolia, saudade, satisfação, gratidão e dever cumprido o qual marcou os últimos dias na Polônia. A volta, uma readaptação (loucura sair de um lugar onde a neve estava caindo, as ruas eram de pedras, a arquitetura totalmente diferente, a língua distinta, um povo de aparência similar) e no dia seguinte estar dormindo no meu pequeno palácio, o meu quarto no Brasil, como se tudo fosse um sonho, mas era real! Mesmo sendo brasileira, cheguei prestando atenção em coisas que antes eram normais para mim: em uma tarde em um Açaí com os amigos, vejo dentro de alguns metros quadrados descendentes de europeus, indígenas, africanos, asiáticos... Como os verdes das árvores na rua são bonitos, como nosso clima é agradável, como é bom ouvir a Língua Portuguesa, nossa diversidade faz da nossa cultura rica, incomparável! “Jéssica, mas sempre esteve ali, sempre foi assim”, um me disse; mas respondo que nunca esteve ali como eu via agora. Ao mesmo tempo, a falta de educação no trânsito, calçadas irregulares, políticos corruptos ascendendo à presidência de órgãos importantes dentro do nosso governo, buracos nas ruas. Dilema, meio que um “ame-o ou deixe-o”. Recuso a realidade por meio de choros, agressividade e carência entre os que tanto prezo, que tanto me identifico e que tanto senti saudades. Será que ainda me identificava com eles? Será que ainda me identificava comigo mesma? Posso chamar o que vivi de crise de identidade? Quando menos esperei, acomodação novamente. Ausência quase total de ansiedade. A Jéssica pré-polônia, agitada, que procurava evadir a ansiedade da viagem em baladas todos os finais de semana, encontrou uma Jéssica mais serena neste mês pós-TPM de viagem. Rapidamente, já prestes a viver uma nova experiência de intercâmbio (não significa que entre o “ame-o ou deixe-o”, resolvi me exilar por um tempo, mas que essa nova viagem já estava nos planos antes mesmo que eu fosse para a Polônia), prefacio esse intervalo de um mês e rememoro eu mesma nos dois meses que antecederam a esse nessa introdução que já é quase o tamanho do texto (não se engane pela letra menor).
Jéssica Godoy
Poderia fazer uma lista de habilidades que melhorei ao longo desses dois meses, de pontos de vistas que se agregaram aos meus, de potencialidades que reafirmei ou que descobri em mim mesma, que me redescobri, enfim. Na verdade, tudo isso já ficou meio subentendido ou mesmo explícito nas postagens anteriores. Porém, esse tipo de coisa interessa mais a mim do que a qualquer um e quem convive comigo aos poucos vai percebendo as mudanças.
Eu sempre acredito que na vida a gente se transforma a cada segundo. Às vezes sentimos falta do que éramos no passado (porque vivemos algo muito maravilhoso e queríamos que se repetisse) só que, mesmo assim, mesmo que se pudéssemos, jamais seria a mesma coisa: a geografia muda sim, o calendário e o clima não são os mesmos, os envolvidos na história mudam também e, como consequência, as reações, as emoções e até os sentimentos seriam diferentes. Em certos momentos da minha fala, alguns chamariam isso de maturidade (não digo em relação a mim e sim de uma maneira geral) outros, em alguns mais, de recaída (doesn’t matter!).
Se há algo sobre mim que escrevi em meu diário de bordo e revelo aqui é este: “em um dia, reafirmo-me em todas essas afirmações; em outros, estas mesmas se transformam em achismos e contesto; em mais um ainda, afirmo outras coisas que ainda não tinham vindo em mente. Na verdade, acho (lá vem as hipóteses de novo) que somos formados mesmo é de suposições e dúvidas”.
A realidade (realidade? – deixa a Semiótica um pouco pra lá; no caso, é só uma expressão) é que quando não saímos da nossa zona de conforto, continuamos a viver dentro de uma rotina, as mudanças acontecem? Claro, a vida está aí pra nos impelir a crescer sempre, mesmo se estivermos engatados na marcha lenta: dificuldades, problemas, doenças, às vezes não conosco, mas no nosso meio (familiar, amigos, conhecidos) são como um despertador (como disse uma fonte de uma matéria que fiz sobre Linfoma uma vez), a gente precisa acordar e mudar, seja no sentido que for, é inevitável.
Recebi uma notícia chata essa semana, um garotinho de um belo sorriso (não faça pré-julgamentos; você entenderá a coesão com o que estou dizendo e porque me encantei por esse detalhe indispensável nele) que conheci em um projeto voluntário na minha cidade no ano passado e acompanhei a trajetória dele por boa parte de 2012 esteve com câncer. Curaram-no, mas descobriram agora que ele tem mais cinco tumores: um no braço e dois em cada pulmão. Os médicos não deram chance de vida. Enquanto alguns reclamam, ele mostra fé e serenidade por meio de um sorriso, lição pra tanta gente que não é doente, mas arruma problemas toda hora (e eu me incluo nisso). Outra garotinha, uma princesinha, história parecida e sofria da mesma doença. Morreu no ano passado. Tão jovens, tão crianças, ensinando-nos a resignação (que é diferente de submissão, mais do que adultos que se acham mais espertos e maduros). Um choque, um sofrimento, mas, por fim, uma valorização da saúde e exaltação da vida de quem ainda tem e tem muita coisa pra viver, aprender e agregar e vê esse tipo de situação, independente do tipo de envolvimento com cada um deles. Tudo faz a gente progredir de alguma forma (é claro que depende do ponto de vista, você pode estar pensando, mas eu sou bem otimista quanto a isso).
Só que, voltando, quando a gente sai dessa mesma rotina e zona de conforto as coisas acontecem muito mais rápidas e talvez de um jeito que jamais aconteceria se permanecêssemos parados, ali. De um jeito maravilhoso. E, finalmente, foi exatamente isso o que aconteceu comigo. Sem dramas, sem encantamentos ou ilusões. Como disse o B, aquele mesmo chinês que me fez chorar no começo, algo que eu já sabia: “só você mesma é responsável por fazer do seu intercâmbio uma experiência maravilhosa”.
Sofri morando em um quarto misto com mais dez pessoas? Dois banheiros para um hostel inteiro? Roupas e objetos pessoais sempre dentro da mala fechada com cadeado? Diferenças? Câmbio? Sotaques? Dificuldades de fala e entendimento? Medos? Saudade? Frio? Lavar roupa, louça, comprar comida, me virar? Mas só eu sei o prazer que me deu ao chegar ao fim dessa etapa e ver que, por esforço, eu tinha passado por cima de tudo aquilo. Tudo vem para um bem final e não há mérito sem esforço.
E mal digeri essa, logo mais, hoje, acontece a primeira despedida. Um novo livro em branco para escrever novas histórias está sendo preparado desde aquele 12 de Outubro de 2012 quando enviei todos os documentos para a minha universidade a fim de tentá-lo. Talvez, na verdade, antes mesmo, quando uma amiga minha me mostrou o edital em um estágio na Rádio. Este segundo intercâmbio já dá sinais claros de que é hora de mandar bala, terminar as postagens sobre a viagem anterior, antes que o tempo faça com que o tema se esgote por si só, em estudar um pouco de espanhol e começar a arrumar as malas. Porque, como aquela quinta que estava prestes a chegar e chegou e aconteceu e já foi, esta já está batendo na porta e me convidando para novas experiências, para uma nova Jéssica.
Parece que agora o tempo passa cada vez mais rápido, já é março, comecei a escrever este texto no final do dia 1, já é dia 2. Estamos vivendo os 5 minutos de prorrogação. Emoção à flor da pele. Correria. Pra marcar o gol? Tudo tem que estar em “perfeita” ordem. Dessa vez, mantenhamos, de verdade, a regularidade, como disse um amigo meu, na calçada de casa, testemunhados pelas estrelas “brasileiras” (como na hora pensei), na semana que eu embarquei para a Polônia. É clichê, mas no final, tudo dá certo.
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