domingo, 15 de setembro de 2013

A vida é o trem, não as estações


A vida é o trem, não as estações


“Saudade é amar um passado que ainda não passou,

É recusar um presente que nos machuca,

É não ver o futuro que nos convida”.

(Pablo Neruda)


Jéssica Godoy






(Que dificuldade em começar esse texto em Português! Ou penso em uma expressão Castelhana e que ficaria esquisito em minha língua materna, ou aparece inconvenientemente uma palavra escrita no meio de uma frase na tal língua estrangeira).

“É o ano da sua vida”, alguns dizem. É sim um ano de muita informação e muito crescimento. Eu sonhei com isso, eu pedi por isso, eu lutei por isso, contra os dragões do caminho e do medo. A despedida no Chile trouxe um esgotamento psicológico, uma fadiga. Os reencontros no Brasil e a adaptação na Argentina também. Eu já previa tudo isso. Somados ao pouco tempo para digerir isso tudo. Foram só 21 dias entre tantas mudanças. Sim, a preparação estava acontecendo desde o meio do segundo intercâmbio e ainda um mês e uma semana depois não me sinto adaptada aqui, agora. É um processo, eu entendo. Um luto. Assim dizer, o luto é necessário, é saudável, mas temos que entender a hora de lhe por um fim. Isto é, tem seu tempo de começar, tem seu tempo de terminar. Luto por um amor perdido por circunstâncias diversas, luto por uma vida temporária, mas que no conjunto é um pedaço do todo. O fim é a ressignificação que aprendi nessa temporária vida de intercâmbio, como a chamo. O amor perdido é o transformado, que seja em uma grande amizade. As situações vividas são as transformadas, que sejam em maduras experiências e nostálgicas memórias. Sim, o futuro que tanto temi é hoje e é sim, apesar do novo, um efeito do ontem. Aprender a lidar, viver é escolher, ganhar, renunciar, lidar com consequências.

Nesses dias atrás, numa sugestão pra uma amiga, reflexionei que às vezes a vida pode começar com uma viagem e também se acaba com uma, é o que a gente chama de adaptação e readaptação. Não só de uma viagem exterior, mas de uma viagem por dentro. De se conhecer, de se aprimorar, de criar, de recriar valores, visões, de recriar-se. A vida é uma eterna soma das duas coisas (adaptar e readaptar), mais intensificada ainda, ou talvez mais latente, no meu caso, por três intercâmbios (praticamente) seguidos. Viajar é a materialização de um sonho, de um desejo e não a continuação de um hábito meu. Do frio intenso do leste europeu, para as terras banhadas pelo gelado Pacífico e separadas por uma cordilheira até o outro lado dela, terras cortadas pelo rio de La Plata e contornadas pelo Atlântico sul de queridos amigos. Sim, 21 dias após uma experiência memorável de uma forma tão incrível e que não sonhei viver depois da Polônia, a experiência chilena, (onde fiz grandes amigos e muitos deles argentinos) aqui estou há um mês e uma semana em solo argentino, fazendo o mesmo programa de intercâmbio do Chile, mas vivendo uma experiência inédita e inimaginável em muitos aspectos. Falando um castelhano já esperado, confirmando perfis, surpreendendo com ritmos, lembrando reggaetones que lembram pessoas que lembram momentos, sentindo falta de rostos e vozes e gestos e presenças...

“Sóla con el olvido...” – Escutando o mexicano Maná; maravilhando-me com Liniers; não tirando a blusa da Mafalda do corpo; apaixonada por Persiana Americana para curtir, Cumbia Villera para dançar, Darín e Villamil para assistir; ampliando meus conceitos de Comunicação como profissão e ciência e entendendo que a união que Bolívar propunha da América Latina faz todo o sentido para conquistar o desenvolvimento dessa mesma américa e isso inclui também do Jornalismo; entristecendo-me por um sentimento de solidão, irritando-me com o frio (que já está acabando, mas que deu lugar a uma chuva insistente) e mais precisamente com assuntos como futebol ou a minha falta de tolerância ou a falta de humildade de alguns em reconhecer que brigadeiro não é parecido com mais nada que eles possam ter; tudo isso é o reflexo mais ou menos do que vivo e de como me sinto aqui.


Uma pausa. Uma notícia. Neste momento, ao saber do presente de um amor passado, sentimentos antagônicos se dividem em um nervosismo que me perturba e uma felicidade que me contagia e se libera: por ele que refez sua vida, por mim que resignifiquei o amor que achava que não iria mudar nunca, por nós que crescemos mesmo seguindo caminhos diferentes. Chile, obrigada por isso também. Depois do “nossa!” e nenhuma palavra a mais inicial, resolvi deixar o riso tímido e espontâneo e a felicidade tranquila prevalecerem.

Dois meses foi o tempo em que eu estive na Polônia. Farão dois meses em dois dias que deixei o Chile. O quanto se pode aprender vivendo no presente e o quanto se pode deixar de aprender vivendo no passado na mesma quantidade de meses. Não que eu não tenha aprendido nada agora, aprendemos muita coisa também na ausência de intensidades vividas e na presença de intensidades sentidas no coração e na mente, que é o meu caso atual.

Dois dias para uma data relevante. Aniversário de duas grandes amigas, dois anos do primeiro beijo nesse amor passado que tanto me impulsionou (o que alguém um dia me disse “amor próprio projetado” e que foi quando todo o sentimento passou a ter mais sentido, quando a resignificação encontrou um caminho) e dois meses exatos desde que deixei o Chile.

Quanto aos meus intercâmbios, pensam e eu também pensava que o terceiro seria ainda mais fácil. Em muitas coisas sim, mas também se trata da soma do turbilhão dos dois primeiros e nisso é muito mais difícil. Olho seus fins e penso: não aguento mais viver coisas temporárias, estou precisando viver coisas mais perenes. Mas replico: mesmo em uma vida de aparentes coisas duradouras, a nossa reciclagem, de outras pessoas, de lugares dentro desse lugar maior faz que essa mesma vida duradoura renove-se ao fim de cada ciclo, assim é Bauru para mim. Ou seja, a temporalidade é uma característica da vida e não somente de situações como as que vivi e vivo neste ano.

Cada ciclo em um lugar são estações, cada estação representa um lugar. As estações fazem parte da trajetória do trem. Cada uma conta uma história de quem entra, de quem sai, de quem permanece só na mente e no coração e de quem continua participando ao nosso lado, presentes (no coração, na mente e virtual ou fisicamente). Em algumas, a gente se detém um pouquinho mais, outras um tantinho menos. Ao final, a vida será esse movimento e cada uma das estações comporão a viagem eterna, que não termina nem com a morte, que também é uma estação.

Os auto falantes já anunciaram: estação Argentina. O trem já deu a largada há um mês e uma semana; peguei minhas malas da estação chilena; acenei o adeus pela janela, deixei de olhar pelo vidro; tomei fôlego e coragem para entrar de vez nessa nova parada. De vez em quando darei uma olhada nas fotos (que representam decisões e as relações que fiz com cada pessoa que cruzou no meu caminho – e que cruzei no caminho delas) e um misto de sentimentos virão, cada vez com um olhar diferente. Mas não posso viver de nostalgia. E por isso, deixo o luto de lado, desço do trem, são mais de três meses pela frente, admiro e abraço o novo, com cuidado, consciente. O tempo não para, o tempo caminha sempre em frente.

Como diria Laísa quando estávamos no Chile: “O passado parece sempre melhor do que realmente foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será”.

Sentia-me perdida. Às vezes a gente precisa se perder pra se encontrar e é me perdendo que eu escrevo e é escrevendo que eu me encontro.




"A tu casa yo fui 
Y no te encontré
En el parque, en la plaza, en el cine yo te busqué,
Te tengo atrapada entre mi piel y mi alma
Más ya no puedo tanto y quiero estar junto a ti"... 

Chi, Chi, Chi, le, le, le... Viva (el grande) Chile!

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