De dezembro a dezembro
Ansiedade criativa é o que eu sinto. As ideas surgem como um turbilhão e se transformam em palavras na minha cabeça. Quero regurgitar todas elas, o que me dá cansaço só de pensar em começar.
Jéssica Godoy
“La nostalgia suele ser un rasgo determinante del exilio, pero no debe descartarse que la contranostalgia lo sea del desexilio. Así como la patria no es una bandera ni un himno, sino la suma aproximada de nuestras infancias, nuestros cielos, nuestros amigos, nuestros maestros, nuestros amores, nuestras calles, nuestras cocinas, nuestras canciones, nuestros libros, nuestro lenguaje y nuestro sol, así también el país (y sobre todo el pueblo) que nos acoge nos va contagiando fervores, odios, hábitos, palabras, gestos, paisajes, tradiciones, rebeldías, y llega un momento (más aún si el exilio se prolonga) en que nos convertimos en un curioso empalme de culturas, de presencias, de sueños. Junto con una concreta esperanza de regreso, junto con la sensación inequívoca de que la vieja nostalgia se hace noción de patria, puede que vislumbremos que el sitio será ocupado por la contranostalgia, o sea, la nostalgia de lo que hoy tenemos y vamos a dejar: la curiosa nostalgia del exilio en plena patria”.
(Trecho “El Desexilio”, Mario Benedetti)
Jéssica Godoy
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| Significar, resignificar. Destruir, reconstruir.
Malba - Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires - Exposición Liliana Porter /
Crédito: Jéssica Godoy
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Já fez um ano que eu saí de casa. Exílio voluntário. Sempre pensei como seria quando chegasse esse dia, embora não seja definitivo e eu regresse, eu nunca mais vou voltar. Digo, a rotina, o meu círculo social, meus refúgios de lazer podem ser que continuem os mesmos, aparentemente, é claro, mas já não sou a mesma aqui dentro, também não seria se eu nunca tivesse saído, mas é diferente. Tampouco posso dizer que vivi cinco anos em um. Vivi um único ano, um ano único e isso bastou. Percorri uma odisseia, desbravei sendeiros desconhecidos. No começo, o intercâmbio se apresentava como pura magia, no último já era uma coisa habitual, não que eu estivesse sendo orgulhosa, mas sim que já não era uma total novidade. O primeiro foi incrível, o segundo o melhor, o terceiro intercâmbio o mais difícil. E não só pelas situações, mas sim pelo meu próprio estado emocional e a carga de experiências adquiridas em um período recorde para mim mesma e que necessitavam ser digeridas num tempo que não era o meu pra que eu pudesse viver situações novas.
Descobri lugares, fiz amigos, fiz amores, os desfiz. Nunca imaginei que o intercâmbio fosse ser o responsável por esse primeiro passo de independência da maneira como foi. Na verdade, só tinha uma ideia vaga do que seria essa tal independencia: lavar roupa? Fazer a própria comida? Lembro exatamente daquela madrugada do dia 29... Minha mãe ajoelhada no sofá olhando timidamente por uma fresta da cortina. Eu a vi chorando, e muito. E só eu mesma sei o luto que eu senti naquele momento. Nesse dia eu nasci para o mundo e cortar o cordão umbilical foi uma morte de uma gestação, a partir daquele momento, eu teria que respirar pelos meus próprios pulmões e digerir pelo meu próprio estômago. Isso não quer dizer que eu já não tinha uma certa independência, mas teria que aprender a viver fora do útero.
Descobri lugares, fiz amigos, fiz amores, os desfiz. Nunca imaginei que o intercâmbio fosse ser o responsável por esse primeiro passo de independência da maneira como foi. Na verdade, só tinha uma ideia vaga do que seria essa tal independencia: lavar roupa? Fazer a própria comida? Lembro exatamente daquela madrugada do dia 29... Minha mãe ajoelhada no sofá olhando timidamente por uma fresta da cortina. Eu a vi chorando, e muito. E só eu mesma sei o luto que eu senti naquele momento. Nesse dia eu nasci para o mundo e cortar o cordão umbilical foi uma morte de uma gestação, a partir daquele momento, eu teria que respirar pelos meus próprios pulmões e digerir pelo meu próprio estômago. Isso não quer dizer que eu já não tinha uma certa independência, mas teria que aprender a viver fora do útero.
Quebrei, requebrei, construí, reconstruí visões - não princípios - das coisas. Não conheço nada diante do que é o mundo, mas o pouco que eu toquei, senti que as coisas vão além da imaginação dos livros fantásticos, dos livros didáticos, dos filmes de cavalaria e das comédias românticas... Mais do que lugares, conheci ainda mais as pessoas. Um mergulho numa experiência incrível no ser humano: no outro e dentro de mim mesma.
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| Fellini, Liniers |
Avancei, avancei até onde não conseguiria mais e descobri que eu podia ir ainda mais além quando achava que não mais. Assustei-me, recuei, estagnei. Quebrei a cabeça, refleti muito. Cheguei a conclusões, neguei todas elas logo depois. Reinventei-as. Ri muito, ri até doer a barriga, chorei muito, chorei a tal ponto de achar que dormindo meu mundo seria melhor. Mais uma vez entendi algo que eu já conhecia, contudo ainda não tinha aprendido: nosso mundo é um reflexo do nosso interior.
Senti nos pés e na alma, a dor que causa o frio gelado do Leste Europeu - em pleno Dezembro - quando não usamos as botas adequadas. Senti o calor nos pés e na alma, a dor que causa o sol ardente de uma praia na América do Sul - em pleno Dezembro - quando não nos protegemos com filtro solar. Aprendi que a bota adequada e o filtro solar fazem toda a diferença quando lidamos com limites. Os extremos não só incomodam, eles doem, machucam.
Assim como o intercâmbio pressupõe, conheci pessoas do mundo inteiro. No entanto, o maior aprendizado disso foi a amizade que me propiciou entrar um pouco no universo de cada um deles e perceber que o ser humano tem desejos e medos independentemente da cultura, etnia, nacionalidade ou idade... Talvez demonstrem de maneira mais aflorada, talvez de outra mais tranquila.
Senti saudade, uma saudade calma e que acaricia, e uma saudade que corta e dilacera. Senti saudade de casa, saudade dos meus pais, dos meus amigos, saudade de Bauru, saudade do Brasil, saudade do meu povo, da minha cultura, da minha Língua materna; senti saudade de outros intercâmbios, saudade de amigos estrangeiros que para mim eram mais compatriotas, apesar de todas as diferenças, comparados a muitos brasileiros; saudade de cada pedacinho de mundo que ficou com uma parte de mim, porque levei uma parte deles.
Sou uma metamorfose. Sou definições, sou indefinições, algumas permanentes, algumas temporárias. Uma “bralonesachilentina”. Sou um pouquinho de cada lugar que viajei e morei. Sou também um pedacinho do lugar de origem de cada amigo desse mundo que fiz.
Senti nos pés e na alma, a dor que causa o frio gelado do Leste Europeu - em pleno Dezembro - quando não usamos as botas adequadas. Senti o calor nos pés e na alma, a dor que causa o sol ardente de uma praia na América do Sul - em pleno Dezembro - quando não nos protegemos com filtro solar. Aprendi que a bota adequada e o filtro solar fazem toda a diferença quando lidamos com limites. Os extremos não só incomodam, eles doem, machucam.
Assim como o intercâmbio pressupõe, conheci pessoas do mundo inteiro. No entanto, o maior aprendizado disso foi a amizade que me propiciou entrar um pouco no universo de cada um deles e perceber que o ser humano tem desejos e medos independentemente da cultura, etnia, nacionalidade ou idade... Talvez demonstrem de maneira mais aflorada, talvez de outra mais tranquila.
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| Fellini y Madariaga, Liniers |
Senti saudade, uma saudade calma e que acaricia, e uma saudade que corta e dilacera. Senti saudade de casa, saudade dos meus pais, dos meus amigos, saudade de Bauru, saudade do Brasil, saudade do meu povo, da minha cultura, da minha Língua materna; senti saudade de outros intercâmbios, saudade de amigos estrangeiros que para mim eram mais compatriotas, apesar de todas as diferenças, comparados a muitos brasileiros; saudade de cada pedacinho de mundo que ficou com uma parte de mim, porque levei uma parte deles.
Sou uma metamorfose. Sou definições, sou indefinições, algumas permanentes, algumas temporárias. Uma “bralonesachilentina”. Sou um pouquinho de cada lugar que viajei e morei. Sou também um pedacinho do lugar de origem de cada amigo desse mundo que fiz.
Tenho nas veias o sangue dos indígenas que sofreram e sofrem etnocídio e genocídio desde 1500. Tenho os pés na senzala, tenho nos traços e nos cabelos os genes dos negros africanos que vieram obrigados, trabalharam como escravos, viraram mercadoria e hoje lutam para sair do patamar de marginalização que o próprio fim da escravidão os deixou. Tenho na cor da pele, nos costumes e na língua a miscigenação com o sangue colonizador. Sou a luta contra a dependência que ainda sofremos. Sou a classe baixa que ascendeu socialmente com o neopopulismo do atual governo de índole tão alienadamente reproduzida e criticada. Mas também os poloneses que morreram no holocausto. A ditadura comunista do Leste Europeu. Sou os brasileiros, chilenos e argentinos, sou a América Latina que morreu na ditadura militar no século XX lutando por democracia e uma sociedade mais justa e igual. Sou os chilenos que lutam por uma nova constituição, por uma educação gratuita e de qualidade. Sou os argentinos que morreram numa guerra tão estúpida como foi a das Malvinas.
Sou o gosto eclético pela música. Sou a filha de uma costureira e de um servidor público que sonharam que seriam comerciantes e que já há 15 anos são. Sou aquela garotinha medrosa, mas cheia de sonhos que queria ser escritora e que sem saber que a sociedade quer impor regras à criação, à arte, escreveu sete livros quando adolescente. Aquela garota que agiu muitas vezes pensando ser amor e descobriu que o mundo não é feito de contos de fadas; mas que podemos com afinidade, sinceridade, fidelidade, respeito, carinho e amor construir relações mais felizes que a de reinos encantados, uma vez que a felicidade não é um estado permanente, mas feita de momento e que a imprevisibilidade da felicidade é que a torna mais valorizável e encantadora. Sou a menina que até os 15 anos não comprava pão na padaria a três quadras de casa e que aos 21 anos derrotou o medo com uma motivação enorme e provou para si mesma que o impossível, quando se define metas, é uma limitação da própria mente.
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| Liniers |
Sou aquela que ama o jornalismo como ele deveria ser e acredita sim que ele possa revolucionar o mundo, o nosso mundo, uma vez que não é de hoje que seu uso tem provocado consequências irreversíveis. Que ama conversar, ama escrever, ama inspirar-se. Sou a que ama incondicionalmente a Deus, a fé, a gratidão. Que ama aos pais, ao irmão, à tia, aos primos, aos amigos. Que ama viajar, a natureza, cachorros (não posso esquecer da minha querida Cristal, de todos os que já tive e de todos que não tenho e sofro quando os vejo abandonados ou morro de rir quando estão acompanhados com o dono fazendo alguma travessura). Ama o voluntariado, crianças, velhinhos, música, as Ciências Humanas e Sociais, a Literatura, a Educação, a Geopolítica, aprender idiomas, falar português, castelhano e inglês. Aquela que volta para o Brasil com um ideal e uma missão, lutar por um mundo mais verdadeiro e cheio de amor na profissão e na vida. Sou a vontade, minha própria loucura, minha opinião, meu cansaço.
Saí um projeto, retorno uma mulher e, embora a palavra possa representar algo grande e acabado, no fundo, só indica mais compromisso com minha própria vida e mais guerras contra minhas próprias imperfeições. Requebro, retorço, resignifico. Serei eterna fênix quantas vezes a vida me transformar em cinzas, quantas vezes eu mesma em cinzas me transformar. Faltam três dias para que eu construa um novo eu, uma nova vida, num novo Brasil aos meus olhos, tendo como base a raiz que continua firma e profunda. Por enquanto, regresso de maneira definitiva. Enquanto isso, devaneios me deixam nostálgica, me trazem alegria, tentam me afundar em tristeza. Assim é a minha vida, assim é feita a vida de todo mundo ou deveria ser: memórias, sonhos, presente, alegrias, tristezas... Dia a dia a gente vai conhecendo, vai aprendendo, vai se moldando.
Trata-se de algo não concluído, permanentemente mutável, mas agora no final do ano mais incrível da minha vida até agora, eu consigo vislumbrar o quanto caminhei, por fora e por dentro, até chegar aqui.
Tenho 22 anos, há muito para ser feito e aprendido, ainda bem! Bendita oportunidade da vida! O que se foi aprendido nada mais é do que um facilitador para as novas metas e também para os obstáculos no caminho. O mais irônico é que o aprendizado não é novo, mas para ser definitivamente fixado, precisa ser posto constantemente em prática: caminhar sempre tendo em mente a paciência, a resignação, o trabalho honesto, a luta, a confiança, a simplicidade. Porque a felicidade está em sentir amor, este sentimento que é a causa primária de todos os outros. É amando que a nossa vida se enche de cor! E contrariando ao escritor modernista Mário de Andrade, amar é um verbo transitivo direto e indireto: eles amaram, vós amastes, nós amamos, ele amou, tu amaste... Eu amei.
Saí um projeto, retorno uma mulher e, embora a palavra possa representar algo grande e acabado, no fundo, só indica mais compromisso com minha própria vida e mais guerras contra minhas próprias imperfeições. Requebro, retorço, resignifico. Serei eterna fênix quantas vezes a vida me transformar em cinzas, quantas vezes eu mesma em cinzas me transformar. Faltam três dias para que eu construa um novo eu, uma nova vida, num novo Brasil aos meus olhos, tendo como base a raiz que continua firma e profunda. Por enquanto, regresso de maneira definitiva. Enquanto isso, devaneios me deixam nostálgica, me trazem alegria, tentam me afundar em tristeza. Assim é a minha vida, assim é feita a vida de todo mundo ou deveria ser: memórias, sonhos, presente, alegrias, tristezas... Dia a dia a gente vai conhecendo, vai aprendendo, vai se moldando.
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| Pero seguro será la consecuencia de lo que estamos haciendo hoy / Liniers |
Trata-se de algo não concluído, permanentemente mutável, mas agora no final do ano mais incrível da minha vida até agora, eu consigo vislumbrar o quanto caminhei, por fora e por dentro, até chegar aqui.
Tenho 22 anos, há muito para ser feito e aprendido, ainda bem! Bendita oportunidade da vida! O que se foi aprendido nada mais é do que um facilitador para as novas metas e também para os obstáculos no caminho. O mais irônico é que o aprendizado não é novo, mas para ser definitivamente fixado, precisa ser posto constantemente em prática: caminhar sempre tendo em mente a paciência, a resignação, o trabalho honesto, a luta, a confiança, a simplicidade. Porque a felicidade está em sentir amor, este sentimento que é a causa primária de todos os outros. É amando que a nossa vida se enche de cor! E contrariando ao escritor modernista Mário de Andrade, amar é um verbo transitivo direto e indireto: eles amaram, vós amastes, nós amamos, ele amou, tu amaste... Eu amei.
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| En Punta del Este, antes de virar um camarão... |
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| Fellini y Madariaga, Liniers |








Olá!
ResponderExcluirTenho um blog/podcast que trata do assunto "brasileiros no exterior" e gostaria de convidar você para uma entrevista sobre sua experiência. Você gostaria de colaborar? Você pode conferir os textos e as entrevistas aqui: www.onomedissoemundo.com
Obrigado desde já,
Filipe Teixeira (filipe1109@gmail.com)