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domingo, 17 de abril de 2016

Na guerra todos são perdedores

Foto: Ricardo Stuckert
Muro de Brasília: a materialização da intolerância brasileira


Por Jéssica Godoy

Conheci, com amigos de intercâmbio, os resquícios do muro de Berlim, símbolo da guerra-fria, em janeiro de 2013. A história ali, viva, estava exposta a fim de se preservar a memória. Era como se um eco mudo estivesse constantemente me dizendo: "sou a consciência de todos aqueles que se julgam fortes a ponto de serem soberanos e autoritários, aprendam e não repitam os mesmos erros".

Fazia um frio extremo, o vento cortava, a neve cobria o chão, penetrava pela bota, pela boca, pelas narinas e ouvidos. Os ossos tremiam, a voz vacilava. Embora as ideias estivessem a todo vapor, era impossível não fugir a um café na tentativa frustrada de me aquecer rápido enquanto eu acompanhava um Free Walking Tour. 

Os resquícios de duas Alemanhas ainda são discrepantes visualmente. O que se observa hoje, em um, é uma arquitetura marcante. Envolta em uma atmosfera de mistério ambientada com o grasnar de corvos, ainda há bondes, prédios suntuosos e muito parecidos, semelhantes aos vistos no leste europeu, como na Polônia, onde vivi, e na República Tcheca, por onde também perambulei. Em outro, uma Alemanha cosmopolita. Para a surpresa de uma interiorana de país latino-americano, há carros elétricos e prédios modernos, um lado impactante de uma cidade realmente de outro mundo. No mínimo, intrigantes. 


Durante 28 anos não era só um muro que as separava. A divisão de terras, que dividiu a Alemanha em duas capitais, foi muito mais profunda e traumática que a destoante arquitetura que ainda se preserva imponente. A Cortina de Ferro representava a intolerância, a ausência, a resistência ao diálogo, o autoritarismo: segregava famílias, amores e sonhos. Era o símbolo do retrocesso, já que sem conversa, sem mãos estendidas, sem corpos abraçados não se caminha adiante, mas de marcha ré. Todo mundo sofreu. Todo o mundo olha, através do significado e da história daquele muro, o retrovisor, lamenta e sofre. Sofrimento limitado. Ignoram os muros físicos e simbólicos que dividem o mundo ainda hoje. 

Há o muro de Israel na fronteira com o norte da Cisjordânia que separa judeus e palestinos construído desde o já virado século XXI. Há um muro entre os EUA e o México separando a "grande potência" dos latino-americanos. Há muros simbólicos que separam a Europa da África e do Oriente Médio e que fazem mortos no Mar Mediterrâneo e Mar Egeu todos os dias. Que separa bolivianos, venezuelanos e cubanos de brasileiros, todos latino-americanos. Que separa a região Centro-sul brasileira do Nordeste. Rico de pobre. Branco de negro. Condomínio de favela. Homem, de mulher, de transgênero. Heterossexual, de homossexual, de bissexual, de assexuado. Cristãos, de cristãos, e de outras religiões... Todos, resultados da violência naturalizada, escancarada, mas que não se enxerga. 

Faz hoje um calor extremo no Brasil. O corpo derrete, a alma treme. Holofotes ligados e atentos na paradoxal Brasília nos últimos tempos. Orgulho arquitetônico e urbanístico nacional, única cidade Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco erguida no século XX. Motivo de vergonha política, antes impublicável, inaudível, silenciado, mas que vem se descortinando, de maneira oportuna, há algum tempo. Vergonha que remete antes mesmo da sua criação, antes mesmo desses. Vergonha que fez parte do Rio de Janeiro, de Salvador, antes mesmos da República. A corrupção e a sede por poder corrompem as terras tupiniquins há mais de 500 anos. 

No último domingo (10), uma das barreiras simbólicas ao diálogo, que já nos vinha dividindo desde a última eleição presidencial, a guerra-fria brasileira se materializou diante da ‘Casa do Povo’. Dos dois lados estão os que acreditam lutar pelo melhor. Há muito oportunismo, sim. Mas há muitos também que não se toleram e por isso perdem a chance de conhecer quem está do outro lado do muro e que também quer um Brasil diferente e melhor para todos. No fundo, têm anseios iguais. A intolerância empobrece o debate racional, o entendimento da política, a formação da opinião pública, as propostas, as soluções. Trata-se da construção de um muro, cortina de ferro literalmente, separando o superficial fla-flu político. "Para evitar conflitos", alguns disseram. Provavelmente, já que não querem dialogar, que pressupõe falar, mas também ouvir. 

O comodismo, porém, não constrói. O ódio nunca construiu. Sabemos que pontes interligam e que muros separam. Mas só na teoria. Na prática evidenciamos o que aprendemos. Infelizmente, muros seguem tão recorrentes nas nossas histórias. Já deixa marcas, no convívio entre amigos, conhecidos, familiares, na democracia que aceita a diferença se se convive com ela, correndo o sério risco, caso contrário, de se dissipar. Uma vez construídos, resultado de guerras, simbólicos ou materializados, os muros caindo ou não, não haverá heróis, mocinhos ou vilões. Perdemos todos.
Arquivo pessoal
Sobre estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Na Alemanha Ocidental...
Na Alemanha Oriental...

A cosmopolita Berlim ocidental.
Berlim.
"Se emancipe da escravidão mental" - Muro de Berlim.
Arte no Muro de Berlim: pintando a história
Partes do muro se mantém para se preservar a memória.
Por onde passava o Muro de Berlim.
Só o amor vence o ódio.
Fla-flu político x Clima de esportiva (literalmente).
Muros nos separarão até quando?
Projeção da queda do muro de Berlim no Muro de Brasília.